Opinião: O estranho caso da cidade que não existe

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Coimbra é um estranho caso de imaginário coletivo. Todos aqueles que gostam muito dela, que sabem que ela é a sua cidade, que fizeram aqui grande parte da sua vida e, por razões várias, tiveram de sair, para sempre voltar, projetam a imagem de uma cidade que não existe. Voltam sempre porque a cidade os chama e o amor por ela impede que lhe resistam; os preocupa; os desespera, quando outros, com total lucidez, lhes apontam o atraso, a decadência, a irrelevância, o descuido, a confrangedora pobreza cultural, a total ausência de indústria, o esvaziamento de massa crítica e o afastamento de tudo o que é modernidade. É um estranho caso em que o amor por uma cidade, associado a memórias mais ou menos recentes ou a imagens de vivências muito queridas, a que se alia ainda um passado grandioso e o reconhecimento das suas enormes potencialidades, nos tolhe o discernimento e impede que vejamos com clareza a realidade. Mas mais importante do que isso, impede que nos mobilizemos para alterar aquilo que nos dizem de forma brutal e que nós, porque gostamos muito de Coimbra, não queremos ver. Coimbra é assim um caso muito estranho de uma cidade imaginária e longínqua, que existe na cabeça daqueles que a amam, mas cuja correlação com a realidade é já somente pontual. Só num lugar imaginário, onde a vida se altera com passes de mágica e onde o essencial se confunde com o acessório, é possível que enganos como o Aeroporto de Antanhol funcionem e não tenham consequências.
A realidade está à vista de todos. Ouçam quem saiu de Coimbra, porque aqui não existiam oportunidades ou conforto, ou quem vem de fora, habituado a outras realidades, e vos diz o que é Coimbra, hoje. É duro de ouvir, mas talvez seja necessário para que se crie consciência coletiva. Ouçam como essas pessoas posicionam Coimbra quando a comparam com as cidades vizinhas, com outras cidades europeias de pequena-média dimensão, e como, de facto, exprimem que Coimbra não tem dinâmica e é totalmente irrelevante. E não pensem que o fazem por mal, por despeito ou por algum tipo de má vontade, até porque muitas delas são amantes da cidade, mas tão somente porque é uma evidência e as entristece o caminho que levamos. Coimbra, durante muitos anos, foi incapaz de escolher pessoas que mobilizassem a cidade para uma transformação que já era urgente há várias dezenas de anos. Os partidos, a sociedade civil, todos aqueles que, no essencial procuram um futuro melhor, não tiveram o discernimento para escolher protagonistas (militantes ou independentes) com visão estratégica, conscientes da realidade, que percebessem o país e o mundo e fossem capazes de reunir equipas (abrangentes) para pensar, projetar e materializar o potencial da cidade. O que fizeram, com a sua ação partidária, de pequeno grupo e muitas vezes mesquinha e egoísta, foi contribuir para uma cidade-ruína que já só representa memórias e algo que já não é sequer real. Infelizmente, as organizações de cidadãos seguiram pelo mesmo caminho: é tudo muito personalizado, focado em pequenos grupos e nada abrangente. Tudo isto é muito crítico e levará várias dezenas de anos a inverter. Acreditar em golpes de asa que tudo alteram, não é nada realista e contribui para a ilusão.
Uma solução diferenciadora exige que exista consciência coletiva da realidade e tem de fomentar uma forte mobilização para a alterar: algo que estimule o efeito de comunidade, por exemplo. Dos partidos exijo discernimento para se focarem numa visão de longo-prazo, que seja capaz de atrair aqueles que podem alterar a sina da cidade: eu sei, tudo isto é já algum desespero, pois os partidos não têm dado exemplo de nada disso. Uma solução diferenciadora tem de ser liderada por alguém com experiência política, com coragem para enfrentar pequenos grupos, com capacidade de perceber que precisamos de ajuda e com incondicional vontade de atrair os melhores (sejam eles de que partido forem ou independentes) para ajudar numa tarefa que podemos e devemos encaminhar, mas que não se completará no nosso tempo de vida. Qualquer outra proposta será um engano, como o do Aeroporto de Antanhol, que só nos afundará ainda mais e tornará muito mais difícil, longo, penoso, ou até impossível, o caminho de volta. A escolha que temos pela frente não é de lugares, não admite táticas partidárias, negociações de gente centrada em si própria, ou no seu pequeno grupo, mas antes de uma visão de futuro que todos teremos de reconhecer e protagonizar.

Pode ler a opinião de Joaquim Norberto Pires na edição impressa e digital do DIÁRIO AS BEIRAS

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