Opinião – Carlos Santos

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1 – Na minha vida só houve um abraço como o teu. Na minha vida só encontrei um adeus como o teu. Era de partir e não voltar. Era de sair sem regresso. Na minha vida houve um amor intenso, com cheiro de mangas, com sabores de papaia. Um dia o pai explicou que íamos com o corpo da avó e não sabia se tínhamos um porto no Índico amanhã. Saíamos com caixotes, regressávamos a Valença do Minho e depois, se tudo corresse bem, instalávamo-nos em Coimbra. Tudo correu desse modo. Houve pelo meio quem nos roubasse contentores no porto de Lisboa. Houve quem nos empurrasse de Coimbra, houve quem nos seduzisse. Tudo começava outra vez, com uma casa alugada, com uma mãe agora só dedicada à família para evitar descarrilamentos, um irmão que arriscava permanecer na instabilidade do novo normal de Lourenço Marques. A vida reabria-se agora com cores novas, com um frio nunca experienciado, com ceroulas por baixo das gangas, com termotebe para evitar tiritar. O inverno é dor de pés, a realidade era difícil de entender. Houve brigas que marcavam terreno, que aplanavam as diferenças. Éramos donos de outros modos, de diferentes sotaques, de roupas divergentes.
A minha descolonização foi menos dramática que a morte da Instituição onde trabalho desde 1993. Agora sou descolonizado ficando, deixo de reconhecer sem sair, perco as referências permanecendo. Estou como o cozinheiro Daniel que trabalhou para nós em Moçambique e depois nos viu partir. Não me chamem Diogo nunca mais. Hoje sou Daniel. Que abraço nos deu!!!
2 – Na minha vida só houve um abraço como o teu. Na minha vida só encontrei um adeus como o teu. Era de partir e não voltar. Era de sair sem regresso.
Podia ser o texto de um divórcio. Podia começar do mesmo modo e não ter qualquer similitude. Sou um homem à solta depois da viuvez, sou um amante abandonado pela distância da vida, sou um caso de verão que se fechou com lágrimas, sou uma história que nunca mais acabaria por ter sido interrompida sem ser terminada. O abrupto e a vertigem são deste modo violentas. Assim ouço as histórias de famílias que se desfazem, de pais que não sabem dos filhos, de filhos que se desentendem com as mães. Há uma intolerância que nasce dos gestos, ausência do perdão, enche-se de dedos que acusam, ou falta de abraços que acariciam. Há sempre estranhas histórias, complexas posturas, profundas incongruências que separam, e ultrapassam os vínculos que aconchegam. É normal discordar, é normal discutir, é também normal não se falarem, mas já é tão extremo para mim.
3 – Como se juntam estes dois parágrafos anteriores? Eu discordo de tudo o que estamos a viver na experiência de reorganização do CHUC, mas declaro, de forma veemente que não odeio ninguém, não acuso ninguém dos que agora se colocam, e sobretudo tenho muita esperança no Dr. Carlos Santos e sua equipa para construir uma instituição moderna, com experiências dignas de marcar a história, com reavaliação de inventários, de sistemas de compras, de organização de unidades funcionais, com coerência para os pagamentos, para os incentivos. Na minha vida só houve um homem como tu. Na minha vida só encontrei uma oportunidade como a tua. É de chegar e mudar.

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