Opinião: À Mesa com Portugal

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“Tem coroa e não é rei, tem escamas e não é peixe”. É o ananás, pois com certeza. Se não é o rei dos frutos pelo sabor e pelas suas qualidades tão prestáveis à nossa saúde, o seu aspeto elegante, imponente e farfalhudo dá-lhe ares de majestade. A sua forma com os pequenos bicos sempre me fez lembrar aquelas gargantilhas e lenços muito armados com que reis, rainhas e nobres poderosos se faziam apresentar na corte. Definitivamente, assenta-lhe bem o ar real.
Sei, no entanto, que Cristóvão Colombo, a 4 de Novembro de 1493, ao receber este fruto dos nativos de Guadalupe (Pequenas Antilhas) como um sinal de boa hospitalidade o batizou de pinha (piña) pelas parecenças deste fruto com uma pinha, fruto do pinheiro. Já os ingleses ao conhecerem este fruto começaram por lhe chamar “pine-cone” (tradução de pinha), sendo que mais tarde, substituíram por “pine-apple”, provavelmente porque considerarem mais adequado tendo em conta o miolo do fruto.
Os estudos botânicos dizem-nos que a origem da domesticação deste fruto está no Brasil e no Paraguai. Acreditam os investigadores que a sua disseminação pela América do Sul ficou a dever-se às migrações e trocas entre tribos nativas. Ainda, sabemos que é em território brasileiro que se encontra maior diversidade genética o que, não só reforça aquele país como o epicentro da origem, como também nos diz que lá se encontram outras espécies do género Ananás. Por isso, no Brasil faz-se a diferença entre o fruto abacaxi e o fruto ananás, se o primeiro diz respeito a frutos de melhor qualidade e a variedades mais conhecidas, o último é usualmente utilizado para descrever a variedades não cultivadas (selvagens) e de qualidade inferior.
Em Portugal, é frequente ouvir que o que circula pelo mercado e pela maioria dos restaurantes é abacaxi e não ananás como se um tivesse mais qualidade do que outro. Na verdade, tal tem mais a ver com a origem e com o modo como a fruta é produzida do que com graus de qualidade. O uso da designação “abacaxi” está circunscrita ao Brasil e Paraguai, já a designação universal do fruto abacaxi é Ananás ou “Piña”. Nós, portugueses, não desmerecendo a importância e o sabor do abacaxi, preferimos o “nosso” ananás que nos chega da Ilha de São Miguel (Açores) e cujo processo de produção envolve tantos e tantos cuidados. Habituámo-nos a esta deferência perante um fruto que demora 24 meses a completar o ciclo de produção e que obriga a um trabalho permanente e quase pessoal de quem dele cuida de forma a criar as condições desejadas. Em estufas de madeira e vidro caiadas de branco (para proteção dos raios solares diretos na planta), a produção de ananás é feita em solo artificial a permitir o arejamento. São as conhecidas “camas quentes” que são feitas com leiva, lenha, terra velha, serradura e aparas de madeira. Na história da produção do Ananás de São Miguel entra o pormenor do “fumo” para ajudar a floração simultânea de todas as plantas dentro da estufa. Logo que a planta está adulta e dura é aplicado a queima de materiais vegetais como ramada, criptoméria, folhas de bananeira e palha de feijoeiro.
É longo o processo como é longa a história deste fruto que por ser tão exótico quando chegou à Europa era alugado para ter no centro da mesa como sinal de riqueza e prontamente devolvido após a exibição. Mas não resisto dizer que nós portugueses tivemos uma importante expressão na sua divulgação pelo mundo. Através das nossas viagens marítimas levámos o ananás para África, Índia e China e, claro, para os Açores! Numa receita inglesa de tarte de Ananás (“tart of the ananas”), 1736, é sugerido juntar Vinho da Madeira a este fruto tão saboroso. Dupla extraordinária… Quem quer experimentar?

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