Opinião: “A Liga das aves raras”

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O que se está a passar com o Desportivo das Aves, desde os jogadores e técnicos com salários em atraso há várias meses, passando pela conta-corrente com o Benfica exposta pelo jornal Público e terminando na pouca transparência da SAD, é a ponta visível do iceberg que é a Liga portuguesa.
Na expansão, globalização e comercialização das diferentes ligas europeias de futebol, sejam as ligas nacionais, sejam as competições de clubes da UEFA, houve um factor absolutamente determinante que mudou o rumo da história e da indústria do futebol: a centralização dos direitos televisivos.
A centralização dos direitos televisivos permitiu, por um lado, que as ligas europeias pudessem ser vistas e seguidas em todo o mundo e, por outro, que se tornassem cada vez mais competitivas e, consequentemente, cada vez mais atractivas, ao dotar os clubes pequenos e médios de meios próprios que lhes permitem construir equipas fortes, competitivas e com independência económica.
Os grandes clubes europeus têm outras fontes de financiamento: publicidade, merchandesing, sócios, parcerias, vendas de lugares no estádio, etc. etc. Mas os clubes pequenos e médios dependem exclusivamente da repartição dos direitos televisivos. E, apesar de se saber que o elevado valor da Liga espanhola depende exclusivamente de Messi, como recentemente referiu Tebas, presidente da Liga espanhola, a verdade é que o Barça, que tem o plantel mais caro do mundo e paga a Messi, recebe apenas 2,5 vezes mais do que o último classificado da liga espanhola. E na Liga inglesa o United recebe apenas 1,3 vezes mais do que o último classificado. Mas é precisamente, por isso, que as ligas espanholas e inglesas se tornam atractivas para o mundo inteiro.
Acontece que a liga portuguesa, em vez de acompanhar o movimento europeu da centralização dos direitos televisivos que revolucionou a indústria do futebol, permitiu que o Benfica, seguido pelo Sporting e o FC Porto, boicotassem esta reforma absolutamente estruturante do futebol europeu, asfixiando economicamente os clubes pequenos e médios e satelizando-os.
Com efeito, sem a centralização dos direitos televisivos, os clubes portugueses pequenos e médios não têm viabilidade económica, vivendo das esmolas do Benfica, Sporting e FC Porto que açambarcaram tudo: as receitas geradas pelo futebol, os jogadores, os adeptos e os comentadores desportivos. Só o Benfica, segundo o Público, tem quase 300 jogadores contratados e, segundo o estudo da Uefa, Benfica, Sporting e Porto têm a totalidade dos adeptos portugueses ( 95%).
Ou seja, sem a centralização dos direitos televisivos, os pequenos e médios clubes vivem na dependência total dos três grandes que os ajudam a pagar as contas, através da compra de resultados desportivos e de votos nas Assembleias da Liga, da compra de jogadores que não precisam, de contratos de empréstimo de jogadores e de pagamento de comissões aos administradores. Além disso, jogadores com vários meses de salários em atraso são presa fácil para quem os quiser subornar. Como é óbvio. E é precisamente para os pagamentos em numerário que existem os sacos azuis. Até os adeptos e dirigentes dos clubes pequenos e médios são dos três grandes. Tal não é a miséria!… Até os adeptos têm de ser emprestados para que os clubes pequenos e médios possam existir.

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