Como vieram cá parar os doidos?

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Imagine um galo que, para se impor, tem de ferir com bicadas e trepar para cima dos que coabitam consigo no galinheiro. É o instinto primitivo do animal. Ele tem a ilusão de que manda até ao dia em que perceber que acabará como todos os outros, dentro de uma panela. Esta história acaba aqui.
Imagine agora um líder que é incapaz de dar uma simples orientação a um colaborador sem o ofender, humilhar e sem vincar sucessivamente quem é que manda.
Um ensaio genial de George Monbiot, académico e jornalista, que escreve no “The Guardian”, tenta explicar como os psicopatas chegaram ao poder. Ou, para simplificar, como vieram cá parar os doidos. Segundo Monbiot, para algumas pessoas é mais fácil comandar uma organização, persecutoriamente, infligindo dor, espalhando assédio e terror, do que processar os seus próprios traumas. Aparentemente, diz ele, o que vemos na política, em todos os cantos, é uma manifestação pública de profunda angústia privada.
Líderes com personalidade psicopata, narcisista ou maquiavélica, refere o conceituado “Journal of Public Management & Social Policy”, podem ser detetados a partir de características como a tendência para manipular os outros, a ausência de remorsos e de sensibilidade, um incontrolável desejo de ser admirado, ou a necessidade de chamar a atenção.
Estes líderes são altamente contagiosos. Acreditem no que vos digo. Pessoas aparentemente sãs, ao permanecerem debaixo do jugo de um líder destes, passam a padecer do mesmo mal que ele e a copiar as suas atitudes tóxicas, mesmo sem se aperceberem. E isto não é uma mera suposição. Foi afirmado por Sigmund Freud, ao notar que, nestas circunstâncias, “os outros assumem a personalidade do líder”. Olhando em profundidade para esta perspetiva, Monbiot concluiu que os traumas e as feridas psíquicas dos poderosos propagam-se aos que estes dominam, convertendo-se inevitavelmente em tragédias públicas. Em linguagem clínica, diz-se que levam os outros a um estado de “burnout”.
O sistema eleitoral e a própria democracia têm procriado aberrações que, reconditamente desalinhadas com o sistema democrático, conseguem adaptar-se a ele e até singrar. Aqueles que deveriam ser menos confiáveis para assumir o poder são justamente os que mais provavelmente vencerão. Algo está a acontecer… Será que é porque as pessoas estão de tal forma anestesiadas que já não se interessam? Ou será que as personalidades tóxicas são as que prosperam em ambientes igualmente tóxicos? Se, para alcançar o sucesso no sistema, é necessário ter traços psicopatas, há algo de muito errado com o sistema.
O caso de Donald Trump, que ocupa a cadeira mais poderosa do planeta, mostra que ele é um homem ressentido, inconstante, impreparado e prepotente. Alheado, até. Dir-se-ia o mesmo de Bolsonaro. E o mesmo de tantos outros nomes que, por certo, lhe passarão pela cabeça.
George Monbiot conclui o seu ensaio dizendo que deveria ser necessário a qualquer um que quisesse participar numa eleição, passar por uma formação em psicoterapia. A conclusão do curso seria a qualificação para o cargo. Isso não mudaria o comportamento de psicopatas, mas poderia evitar que, ao exercer o poder, eles impusessem sobre os outros as suas próprias angústias. A política não é apenas estratégia. É muito mais terrena do que a pintam. E, se a queremos repensar, é preciso desvencilharmo-nos de sistemas que encorajem umas pessoas a pisar as outras.

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