Opinião: Um velho hospital agarrado ao futuro

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Há calendários que não querem nada com o futuro. E há mesmo os que fazem o tempo andar para trás, como o percorrido entre Março de 2011 e Junho de 2020 à conta de uma “fusão” hospitalar que serviu interesses vários, mas não os dos diretamente interessados. Terá sido por isso que os tais diretamente interessados saíram à rua, por estes dias, deixando dito que o Hospital dos Covões não pode ser eliminado do mapa hospitalar de Portugal. Mesmo que haja quem só agora tenha acordado de um sono longo em que se deixou embalar, há a registar que para reverter recuos como aquele que foi comandado por Correia de Campos e Ana Jorge nunca é tarde. Não é tarde, mas tarda.
E tarda porque os governos de Portugal da última década, uns depois dos outros, oscilam entre dois amores, como na edificante cançoneta: por um lado as juras de amor ao SNS, pelo outro o cumprimento de compromissos com os interesses da saúde comercial. Vítima exemplar das setas deste contraditório Cupido, para além das já citadas, temos Maria de Belém – um exemplo entre tantos outros – que usou habilmente o posto de ministra em que foi posta, para ascender aos cadeirões da Espírito Santo Saúde e a outros lugares de uso do SNS para fins comerciais.
Ao longo de quase uma década, o Hospital dos Covões foi sendo esvaziado de valências, equipas médicas e demais trabalhadores da saúde, já depois de lhe ser retirado o papel de Escola de Medicina (por ciúmes e sobrancerias que, sendo traços do pior que a natureza humana exibe, não podem ser banidos do relato desta história triste). O calendário errático, mas decidido a extinguir os dias do velho Hospital, não gerou alternativas no quadro do SNS que não fossem o de somar ocupação aos já tão ocupados HUC.
Tive ocasião de, nestes quase dez anos, ter tomado atenção aos argumentos que, de um lado e do outro, pretendem tão inconciliáveis destinos para o Hospital dos Covões. Foi, porém, unanimemente confirmado que o serviço de Oftalmologia dos Covões era exemplar; que o de Hematologia era modelar; que Pneumologia tinha qualidade superior; que Cardiologia tinha saúde de ferro. E foi-me dito também que as necessidades de atendimento não tinham diminuído, havendo um número crescente de pacientes à procura dos cuidados dos hospitais de Coimbra do SNS. Algo escapa, então, ao entendimento dos comuns que somos nós. Por que razão se despromove um Hospital de “linha da frente” à condição de dispensável? Qual a razão pela qual se retira gente competente e equipamento de elevada qualidade de um lugar em que foram tão precisos?
Enquanto os dias do calendário do avesso continuam a contar, nota-se novo impulso no calendário que aponta para o futuro. E até a Covid-19, à qual não conhecemos nenhuma qualidade, teve o “mérito” de provar a necessidade e eficácia do Hospital dos Covões, cumprindo um papel insubstituível na contenção do desastre. Não há, contudo, no mundo condicionado pelo negócio, lugar para a gratidão. Importa, por isso, garantir a ampliação das posições pela reversão da fusão hospitalar, pela revalorização do parque hospitalar de Coimbra. Posições que deixaram de ser as dos “velhos do Restelo” (entro os quais me conto), para serem os da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos, das estruturas sindicais dos trabalhadores da Saúde, dos partidos políticos, dos autarcas de vários órgãos de poder local.
Aquilo que no calendário-andar-para-trás é a posição autoritária da ARS e do Ministério da Saúde, escudada inicialmente no silêncio cúmplice de alguns dirigentes hospitalares e políticos, deixou de fazer sentido. Quando tão abertamente se reclama a recuperação da dignidade para o Hospital dos Covões, de qualidade para o SNS, de pouco valerão os pareceres que não sejam os dos trabalhadores da Saúde e os de quem precisa de cuidados de saúde de elevada (e comprovada) qualidade.
Como bem se percebeu no entusiasmo combativo do cordão humano em defesa do Hospital de Covões, o que dali foi levado à mesa da ministra da Saúde é um assunto da Democracia.

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