Opinião – Soma e segue. Tá bem, dêxa…

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Na semana passada a população de Coimbra manifestou-se na margem esquerda por melhores condições de assistência médica hospitalar na cidade. Há quantos anos tal não acontecia? E porquê acontece agora? Mais de dois mil manifestantes, juntando populares e pessoal de saúde, reuniram-se no polo de saúde junto ao Hospital dos Covões, num “Cordão Solidário com os Covões”, pedindo sobretudo que o Hospital fosse reactivado e recuperasse as suas funções, para que os seus doentes, agora perdidos nas listas e filas de espera do HUC, a ele pudessem voltar. Notável era a consternação indignada pelo progressivo desaparecimento dum dos dois Hospitais Gerais Centrais de Coimbra e da Região Centro, deixando o vazio que fez agora levantar a opinião pública.
Durante o período agudo da pandemia de covid-19, foi o Hospital dos Covões o escolhido como referência para combater a doença, e pôde sê-lo por manter toda a estrutura e equipamento que tinha como Hospital, pese embora ter vindo a ser fortemente despojado de recursos humanos e reduzido em serviços. Para isso os serviços ainda presentes foram esvaziados dos seus doentes, para receber os de covid, e enfermarias que estavam inexplicavelmente encerradas foram reabertas pelo mesmo motivo. Depois do bom trabalho que nele se fez, esperava-se que a administração do CHUC percebesse a importância da sua existência como Hospital, permitindo que a resposta do SNS em Coimbra e na Região Centro a um aumento brusco de doentes graves pudesse ser a adequada, não sendo possível numa altura dessas estar dependente da criação de listas de espera, depois lentamente esvaziadas através dos hospitais privados. Mas não! Pelo contrário, aproveitou a diminuição do número de doentes infectados para voltar a encerrar as enfermarias que estava fechadas, e encerrar, ou quase, algumas que estavam abertas antes. No caminho para a sua desactivação como Hospital, tentaram mesmo encerrar-lhe a Urgência… que outros exigiram que fique aberta… mas como urgência básica, quer dizer, uma urgência como a de qualquer clínica privada ou dum hospital concelhio… Urgência hospitalar polivalente é apenas uma, a do HUC.
Depois da manifestação, e do apoio que praticamente todas as forças políticas de Coimbra expressamente lhe deram, o desmantelamento continuou, absolutamente inalterado. A enfermaria de cirurgia fica com apenas dez camas, a pneumologia fecha, a cardiologia fecha, a Unidade de Cuidados Intensivos Coronários fecha, e, para ter a certeza que estas duas últimas ficam fechadas, as respectivas camas são levadas para o HUC…
Respondendo a esta preocupação generalizada com a repercussão catastrófica da desactivação do Hospital dos Covões como Hospital, sendo transformado numa espécie de armazém ou anexo do outro, o PSD Coimbra organizou um debate público de urgência, exactamente sobre “o futuro dos Covões”. Futuro que, diga-se, é indestrinçável do futuro do CHUC e do futuro da Saúde em Coimbra e na Região Centro. Nesse debate tornou-se evidente que a fusão dos dois Hospitais, ou melhor, do CHC e do HUC, não foi benéfica. Do modo como está feita, nem se conseguiu simplesmente que 1+1 fosse igual a 2; antes se obteve, numa álgebra distorcida e maléfica, que 1+1=2-1=1. E agora, ao fim de nove anos, a população sai à rua para reclamar por melhores cuidados de saúde nos hospitais. Os doentes de Coimbra vão cada vez mais pedir segundas opiniões a Lisboa ou ao Porto, vão cada vez mais ser tratados nessas cidades, e há especialistas vindos de fora de Coimbra dar consultas em hospitais privados em Coimbra. Se alguém precisar de ir a uma Urgência polivalente, em vez de ir à única de cá e esperar oito horas para ser atendido, pode ir ao Porto, a uma das duas Urgências dessa cidade, ser visto e tratado e regressar, e poupa muito tempo… Num passado muito recente, de há nove anos para trás, quando havia CHC e HUC, Coimbra era uma referência na saúde, que os doentes procuravam e que os jovens médicos escolhiam em primeiro lugar para vir formar-se, e onde queriam ficar a trabalhar. Agora não escolhem, não querem vir e não ficam, indo tantos e tantos profissionais de saúde trabalhar e viver para outras cidades, enriquecendo a sua saúde e enriquecendo-as.
Para tentar reverter o desmantelamento do Hospital, surgiu uma Petição pública, já enviada, com 4500 assinaturas, e aceite para discussão na Assembleia da República, para que lhe seja devolvida a autonomia de gestão de modo a reorganizar-se para poder tratar os seus doentes, que dele necessitam e o querem.
Perante todo este quadro, seria minimamente lógico que o conselho de administração do CHUC parasse para reflectir, e tentasse perceber por que tanta gente, desde utentes, e políticos, até ao pessoal de saúde, se opõe frontalmente à destruição do Hospital dos Covões. Tanta insistência destruidora dá que pensar. E dá que pensar sobretudo a indiferença pelos argumentos, queixas e reclamações apresentados. Num assunto que é de saúde pública, da saúde do país e de todos nós, parece-nos ouvir a reposta do compadre alentejano às razões que o incomodam: “Tá bem, dêxa…”

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