Opinião Urgência Covões: Quando um cego conduz, orientado por quem não conhece a rua

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A destruição, o desmembramento e a anulação da história são um caminho para a re-estruturação económica. Há mesmo fundos predadores que compram empresas falidas, destroem e depois vendem os terrenos, aeroportos, fábricas, etc.

Há os que são especialistas em enviar os trabalhadores para o desemprego, reduzir salários, aumentar as tarefas e reduzir o pessoal forçando à síndrome de Burnout descrita por Herbert Freudenberg. O Presidente da CGD e ex Ministro da Saúde é um mestre dessa estratégia: reduzir estruturas e serviços, sanear, baixar salários.

O Professor Regateiro vai deixar o CHUC com uma nova pathway: as decisões que mudam diariamente para condicionar o caos e depois demonstrar a ineficiência das estruturas que deseja encerrar. É uma aula para tipos mais repousados que tentam gerir no consenso e na análise de produtividade e de resultados.

O artigo 4º do regulamento do CHUC falava dos seus princípios e com a violação de todos eles sai o construtor do apagamento dos Covões, da Maternidade Bissaia Barreto, do Centro Psiquiátrico de Sobral Cid. Não houve fusão, mas há anexação de quadros, de estruturas, de equipamentos, destruição de inventários, apagamento do histórico e violação do direito de trabalho.

Muitos médicos que tinham funções importantes quer de produção quer de resolução de listas de espera foram acometidos ao apagamento com consequências nefastas na Urologia, na Ortopedia, na Cirurgia Geral, na Cirurgia Vascular.

Milhares de doentes que viam resolvida a sua litíase renal nos Covões agora passeiam as pedras e a dor
até ao insuportável. Próstatas doentes caminham para a cirurgia como alguns se arrastam para Fátima. Doentes com úlceras varicosas aguardam anos a consulta de cirurgia vascular. Idosos com fracturas do fémur aguardam dias pelo embolismo em vez da cirurgia. Internados aguardam exames complementares durante semanas.

Houve quem morresse aguardando uma CPRE. Há quem entre de pele limpa e saia com três e quatro escaras. Agora vai-se mais longe: agora vamos reduzir a resposta de Pneumologia, de Cardiologia e de Urgência requalificando de modo ultrajante a história da Medicina de Coimbra.

Podia reduzir custos com melhoria do sistema informático, com alteração do número de consultas à distância, com utilização de aplicações informáticas e telemóveis. Podia apostar na formação de equipas de excelência em cirurgia ambulatória e em consultas abertas. Podia, mas esses caminhos não foram trilhados.

Podia estudar as razões das enormes listas de espera, substituir directores de serviço que não resolvem estas listas, apostar na redução de conflitos entre o público e o privado, criar mecanismos de incentivo coerentes para quem mais produz, para apostas inovadoras que muitos vão desenhando e arquitectando. Podia, mas precisava saber.

A cereja no topo desta convulsão vai ser o encerramento da Urgência dos Covões ou a sua passagem a urgência básica. Isto terá como consequência aumento do fluxo de doentes à urgência do HUC e esta faz-se à custa de jovens médicos e de abuso persistente de médicos mais velhos sobre internos
num conhecido absentismo fácil de comprovar pelas aplicações do alert.

É o parasitismo de décadas, as lapas da hora extraordinária sem eficiência. Claro que há os que cumprem! Claro que há os que admiro! Há uma vergonha por ali a que ninguém põe a mão. Depois há o desenho ideológico do open space do HUC que o Covid 19 veio tramar. Salas cheias com um número brutal de doentes acamados e frequente encosto de macas em trifila que agora passará a quatrifila. O Prof. Regateiro não se deitou lá e por isso não lhe importa.

O encerramento da resposta de cardiologia, de pneumologia, de medicina interna no polo Hospital Geral, vulgo Covões, vai aumentar em um previsível 20% o número de macas no HUC. Serão inevitáveis atrasos no atendimento, aumento dos conflitos, Burnout dos profissionais, despoletando erros graves quer no diagnóstico quer na decisão.

As decisões estarão condicionadas por excesso de gente e incapacidade de resposta. Em Outubro prevejo a catástrofe. Ultimamente quem não faz urgências nem vê doentes é quem mais decide sobre tudo isto. O cego conduz o autocarro contra a parede.

A falta de capacidade técnica de resposta às solicitações – cateterismos, imagiologia, exames endoscópicos, transporte de doentes em ambulâncias de e para o hospital, vai levar muitos a colocar indisponibilidade para prestar urgências piorando o sistema.

Ninguém normal e honestamente faz oitenta ecos por dia, quarenta endoscopias, oitenta Ressonâncias. Para haver internamentos novos tem de haver pressão para altas precoces e inseguras. Só que esquecem
que muitos não sairão, exigirão cuidados continuados.

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