Opinião: Esperança!

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O interior foi tema nacional há 3 anos, depois de muitos anos a ser base de discussão. Vimos e ouvimos muitos a falar, pela primeira vez, com energia sobre essa dicotomia entre duas partes de um Portugal que apesar de pequeno, parece enorme. Enorme na diferença de oportunidades que é, por sua vez, a consequência da disparidade de densidade populacional. Não há milagres. A economia é a alavanca do desenvolvimento da sociedade e se não há pessoas, não há economia, pelo menos, de forma imediata. Portugal tem aproximadamente um terço da sua população nas áreas metropolitanas do Porto e de Lisboa, para o bem e para o mal. Podem chamar os especialistas que quiserem, anunciar os planos mais elaborados, mas, no final, se não houver emprego, não há pessoas, e se não houver pessoas, os territórios estão mais facilmente expostos ao abandono.

Pedrógão é o símbolo desse abandono por causa da fatalidade dos incêndios que ceifaram a vida a 66 portugueses, em Junho de 2017. É ou foi o símbolo de um Portugal envelhecido que vai ficando para trás porque falta massa crítica e acaba fechado, apesar de todos os esforços. Hoje, em tempos de pandemia, falamos de “novo mundo”, de “nova visão” e até de um “novo tempo” que vai permitir uma “nova forma” de desenvolvimento. Mas, temo que , no final, daqui a 10 anos, tenhamos feito mais do mesmo porque falta coragem e falta rasgar os métodos do passado. É certo que só temos um pouco mais de 45 anos de democracia, um pouco mais de 30 anos de Comunidade Europeia, e que tínhamos problemas básicos para resolver em todo o território nacional. É certo que continuamos na cauda da Europa no que concerne à percentagem de jovens que conclui o ensino secundário e também é certo que temos uma das maiores percentagens de pessoas sem acesso a tecnologias de informação, apesar de ávidos utilizadores de redes sociais. Se olharmos para a Região Centro, concentramos uma das áreas de maior densidade florestal, a par de uma das menores densidades populacionais, em muitos concelhos. No que concerne a áreas urbanas, temos os 6 pólos distantes e que , minha opinião, em vez de se unirem ou de termos alguém que os una, vivem (quase) orgulhosamente de costas uns para os outros. Coimbra, Aveiro, Leiria, Viseu, Castelo Branco e Guarda pertencem à mesma região porque a geografia assim o ditou, já que política e socialmente estão longe e não se importam.

A responsabilidade é dos seus protagonistas políticos que se alegram em parecer ser o que jamais serão. Aveiro puxa para o Porto, Leiria puxa para Lisboa , Viseu tenta ser a ponta do triângulo formado com Aveiro e Porto, Guarda e Castelo Branco tentam sobreviver porque estão longe , apesar de aqui tão perto, e Coimbra continua a ser a “capital” de outrora que já quase ninguém dá nenhuma importância. Enquanto isso, os cerca de 100 pequenos e médios municípios que gravitam à volta das seis cidades maiores, fazem o que podem , muitas vezes inventando o melhor que sabem para justificar a sua sobrevivência. O que faz o Estado ? Pouco mais do que reage ao sabor das circunstâncias, sem nenhuma estratégia , jogando aqui e ali, uns dinheiros comunitários, para “lavar” a consciência. Porque essas políticas exigem mais tempo e os governos não têm esse tempo. Sou contra qualquer regionalização porque sinto que não é com mais órgãos políticos de eleição direta que lá iremos. Sou a favor de termos líderes locais fortes que tenham uma visão para o território e que lutem pelas suas populações e pela sua identidade e desenvolvimento, percebendo as suas diferenças e os seus valores sociais e patrimoniais. Convenhamos que é pertinente perguntar sobre o que é que mudou de relevante neste nosso interior desta nossa região Centro, desde 2017. Nada. Basta perguntar às pessoas que lá vivem, independentemente de qualquer retórica política. Nada se resolverá com romantismo ou apregoando políticas messiânicas.

Podem convidar os especialistas , promover terapias de choque fiscal (quase sempre mais do mesmo), tentar distribuir dinheiro por todas as capelinhas, mas, na essência, falta tudo. Falta uma estratégia sem cativações, falta atrair meia dúzia de investimentos âncora, falta olhar para as âncoras existentes e dar-lhes um tratamento especial, falta uma rede de transportes decente e económica, falta cobrir o território de fibra ótica (quem a quer ter, paga, como aconteceu na empresa onde trabalho), falta fixar gente que só se fixa se perceber que há dinâmicas culturais e sociais. O interior não pode ser só uma visão de uma coutada de turistas, perdoem-me todos. O interior tem identidade de sobra, mas precisa de tempo e investimento. Portugal não discute sequer o essencial, apesar de passar a vida a discutir minudências.

Vêm aí tempos desafiantes. Vamos viver mais uma crise de desemprego, portanto social e económica. O interior provavelmente lá terá umas majorações nuns subsídios europeus que, obviamente, nada resolverão. Afinal, vivemos num País em que o Governo anuncia de forma solene que os Presidentes das Comissões de Coordenação Regionais serão eleitos por Presidentes de Câmara, Vereadores e deputados municipais. Falamos dos órgãos que poderiam ser os catalisadores de desenvolvimento, os integrais de uma visão regional e os atores de planeamento estratégico regional. Quando para a eleição destes atores políticos, que além da visão e do planeamento regional, são responsáveis pela gestão de milhares de milhões de Euros dos fundos comunitários, não contribuem também empresários ou associações empresariais, universidades e institutos politécnicos, centros de investigação e representantes da economia social, que , aliás, têm assento no Conselho Regional, estamos falados. Assim se “elegem” os nossos líderes que, depois, não têm voz, nem peso político para tentar mudar o que é necessário mudar. Quase arrisco a afirmar que são os “líderes” que interessam porque não incomodam. Como dizia o outro: “é a vida”. E Pedrógão, o Pinhal Interior e a Região Centro continuarão entalados entre o “poder centralista e distante de Lisboa” e a “voz grossa do Porto”, com meia dúzia de atores, aqui no meio, a fazer de contas que também são importantes. Em qualquer caso, tenho esperança. Não sou um optimista irritante, mas tenho muita esperança que, um dia, vamos mudar.

 

Paulo Júlio escreve ao sábado, quinzenalmente

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