Opinião Urgência Covões: Destruição “camuflada”

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Falar da anunciada pretensão do Conselho de Administraçao do Centro Hosopitalar e Universitário de Coimbra de re(des)qualificar o Serviço de Urgência do Hospital Geral do antigo e genuíno Centro Hospitalar de Coimbra, é, simultaneamente, fazer uma viagem a memórias recentes e profundamente dolorosas de quem por alí passou a maior parte da sua vida profissional e, por outro lado, “aterrar” numa gigantesca e estapafúrdia demonstração do que de pior e de mais desadequado tem mostrado a gestão recente “da Saúde” em Coimbra e, por extensão, na região centro de Portugal.

De facto, se a “fusão” de duas das mais importantes, representativas e maiores Instituições de saúde em Portugal – o antigo Centro Hospitalar de Coimbra e o Hospital Universitário de Coimbra – se revelava, desde o início, uma inaceitável e absurda atracção pelo abismo que só algum tipo de ambição desmedida, pouco legítima, poderia justificar, o modo como esse “monstro”, real e literal, foi crescendo revela, do meu ponto de vista, uma irresponsabilidade que ainda nenhum resultado conhecido conseguiu contrariar.

Portanto, estou tentado a crer que o caminho para a mera destruição total e estrutural do antigo Hospital Geral do CHC está a seguir, indiferente, a sua cartilha no mais elementar desrespeito, desde logo, pelo clamor social e institucional que, por si só, o deveria de imediato condenar.

Teria valido a pena apresentar, ao longo destes anos, os resultados da referida fusão bem como os objectivos e resultados esperados de cada iniciativa de destruição do Hospital Geral “camuflada” da popular “requalificação”. Bem interessante, também, seria a qualificação e quantificação das “sinergias” que era suposto ter obtido e que, de facto, se obtiveram. A questão é que, independentemente do juizo de valor que fizermos sobre a criaçao do CHUC, estão por identificar os seus resultados e o balanço rigoroso, pelo contrário, com a destruição que provocou.

Vamos, então, à “desqualificação” do Serviço de Urgência do Hospital Geral do tal CHUC assim constituído. Duas Comissões Técnicas, a que estive ligado, redefiniram a Rede Nacional de Urgência/Emergência de acordo com critérios objectivos e devidamente publicitados e discutidos. Nos documentos que resultaram deste trabalho, ficaram bem expressos quer o papel e o nível de cada um dos Serviços de Urgência na Rede Nacional referida quer a necessidade do estabelecimento de complementaridades entra as duas instituições.

Tudo claro, tudo racional e objectivo, tudo em favor de critérios amplamente discutidos e, fundamentalmente, assente em dois pilares essenciais do SNS: articulação/complementaridade e hierarquia técnica no sentido da melhor gestão dos recursos disponíveis.

Assim, os dois Serviços de Urgência, do Hospital Geral e do Hospital Universitário de Coimbra, assumem, tecnicamente, importância nacional e importância na saúde local como vértices de duas Redes de Referenciação Urgência/Emergência distintas.

O que se pretende fazer (e, segundo consta, o que pretendia o Sr. Prof. Universitário Presidente era o total encerramento do primeiro) será a total destruição desta realidade estruturada tecnicamente para fazer crescer uma estrutura “megalómana”, despropositada, pouco ágil e, sobretudo, até aqui, sem qualquer explicação que dê, sequer, para discutir. Tanto quanto parece, a ARS Centro, com os mesmos argumentos (nenhum) do Sr. Presidente do CHUC, não aceita encerramento mas sim a passagem administrativa a Serviço de Urgência Básico.

Será o chamado apelo da consciência de quem permitiu que tudo se fizesse da pior maneira possível.
Vamos à história do Serviço de Urgência do Hospital Geral, então. O que se encerra de facto?

• Um Serviço pioneiro, no início de 2003, na introdução do Sistema de Manchester em Portugal, logo após os dois Serviços experimentais (Santo António, no Porto, e Fernando Fonseca, Amadora-Sintra).

• Um Serviço pioneiro na definição de uma lógica operacional distinta do que até aí se fazia e assente no princípio de que os doentes devem ser “agrupados” pelas suas necessidades específicas de momento (e não pela divisão em Especialidades Médicas) numa lógica de concentração e centralização de cuidados que poderia passar a influenciar (e passou) a gestão de todo o Hospital! Toda esta reestruturação do Serviço de Urgência com base nos critérios acima referidos foi, então e em reunião formal para o efeito (Setembro de 2002), apresentada ao Ministro da Saúde de então, Dr. Luis Filipe Pereira, que o elogiou.

• Um Serviço onde foram, desde 2003, criados Circuitos Clínicos de gestão interna de doentes, a partir do Sistema de Manchester, que foram assumidos formalmente pelos sucessivos Conselhos de Administração desde aí! Cumprimos, desde sempre e de forma facilmente comprovável, todos os tempos-alvo para médico adequado (e não apenas para médico) de acordo com os Circuitos de Encaminhamento acima definidos.

• Um Serviço onde o seu próprio Grupo de Formadores e Auditores do Sistema de Manchester (e eu próprio) foi, desde 2003, responsável pela coordenação de mais de 50 Cursos de Formação em Manchester, circunstância que permitiu, por exemplo, a formação e adopção deste Sistema, entre muitos outros, pelo Hospital da Universidade de Coimbra.

• Um Serviço onde em 2005, foi elaborada uma das primeiras Avaliações de Satisfação de doentes do SU. A esmagadora maioria revelou, apesar da desadequação das velhas instalações, que, mais que estar “satisfeito” ou “muito satisfeito” com o Serviço que lhe foi prestado, afirmava vir a aconselhar o SU do HG do CHC a um familiar ou amigo próximo!

• Um Serviço onde a prática de três anos do seu modelo de funcionamento, com envolvimento sistemático do Hospital “como um todo”, permitiu, como todos os profissionais recordarão, ficar em ambiente livre de qualquer papel, “paper free”, em Junho de 2006. Nesse mesmo dia, passámos de uma utilização de cerca de 50 impressos de uso obrigatório para uma realidade imediata sem qualquer papel, de um minuto para o outro, o que, facilmente, atesta o grau de envolvimento de todos os profissionais – centenas – com um modelo funcional de sucesso. Foi no dia 26 de Junho de 2006.

• Um Serviço onde, em Junho de 2005, se iniciou um projecto de envolvimento do sector da saúde na problemática da “Violência Doméstica”, levando a que fosse, institucionalmente, acrescentado ao protocolo do Grupo Violência que era, passou a ser, projecto “modelo” a nível Nacional e que se tornou objecto de citação em vários fóruns Nacionais e Internacionais. Também nesta área foi um grupo, do seu conjunto de profissionais, responsável por dezenas de acções de formação, em vários fóruns, no âmbito do projecto da Violência Doméstica em cenário de Urgência de que foi e é Serviço pioneiro.

• Um Serviço que esteve, e um conjunto significativo dos seus profissionais, envolvido com a implementação do Sistema de Manchester no actual “pólo” HUC assumindo responsabilidade decisiva na formação e sua implementação bem como da Informatização desse “pólo” (????) a partir dessa implementação. Assumi, eu pessoalmente, protagonismo marcado em ambos os processos e se agora o recordo serve, também, para recordar com saudade o homem e o amigo com quem, neles, tive o privilégio de trabalhar, o Dr. Armindo Rebelo, e com quem partilhei horas e horas de dificuldades nos projectos de afirmação dos, então, dois Serviços de Urgência.

• Um Serviço de Urgência que recebeu, em 2006 e 2007, a visita de mais de 20 delegações internacionais às suas instalações – Brasil, Gibraltar, Holanda, Inglaterra, Espanha, entre outras!

• Um Serviço que foi, em 2006, visitado pelo Sr. Ministro da Saúde de então, Prof. Correia de Campos, que elogiou, nessa altura, a “inteligência” de toda a gestão clínica aí efectuada e a respectiva adequação dos espaços físicos que, entretanto, inaugurou.

• Um Serviço de Urgência que em 2008 e em 2009, nos estudos de Satisfação e Qualidade de todas as Instituições Públicas de Saúde em Portugal realizados pela ACSS, foi, em ambos, o melhor a nível da Região Centro e o 2º melhor a nível Nacional (a muito curta distância do SU do Hospital de Sto. António, Porto).

• Um Serviço que, de há muito, introduziu significativas áreas de melhoria na sua gestão de que se destacam a dispensação informatizada de Medicamentos e a introdução do Sistema de Armazéns Avançados na área dos materiais de consumo clínico.

• Todas as suas, do SU, instalações são recentes, modernas, funcionais e com capacidade de poder desenvolver-se ainda mais. Todas as áreas estão equipadas com equipamentos modernos e sofisticados e têm, tinham, projectos de desenvolvimento em que eu próprio participei pouco antes da criação formal do CHUC.
• Foi o Hospital Geral e o seu Serviço de Urgência a alternativa recentemente encontrada para a abordagem inicial no âmbito da COVID-19. Fê-lo, tanto quanto se sabe, com o respeito integral pelos seus processos próprios e à altura da sua “cultura” e da sua história e, já agora, dos seus pergaminhos.
Não obstante, assim, encerra, tem encerrado, ou se desqualifica muito mais que tudo isto… E, como sempre tem sido nos últimos anos, sem aviso, sem consideração, sem nada de nada!

Como hoje em dia se constata, este encerramento começou cedo… E não foi com o mero aparecimento de uma Lei desastrada e baseada em nada (a da criação do CHUC, Março de 2011), que apesar da minha discordância pessoal activa desde sempre, ter-nos-ia permitido, se quiséssemos, construir de outra forma, com outro respeito, com outro conhecimento (que nunca deixei de manifestar estar pronto para por à prova onde e com quem for necessário), com outros valores e para um outro futuro cada vez mais distante…

Desde aí, e para aqui chegar, a destruição foi indescritível… E, de facto, aqui chegou! Onde “tinha” que chegar mesmo nas palavras recentes e recorrentes do seu responsável máximo quando, a propósito do despropósito (encerramento parcial e gradual do SU do HG do CHC), afirma que ela, a destruição, não é destruição, mas sim “requalificação”… !

Inacreditável tal processo e inacreditável irresponsabilidade: – Encerramento de Serviços, progressivo esvaziamento de outros, desarticulação prepotente de ferramentas de uso diário, retiradas de materiais e equipamentos, desfuncionalização de espaços “capitais” e, como não podia deixar de ser, a inevitável “decapitação” de Serviços e Departamentos em cada anexação.

E desta forma, como corolário dessa lamentável trajectória, vai encerrando aos poucos, com ar até de tortura, o Serviço de Urgência do Hospital Geral!

Uma palavra final de esperança: as Redes de Referenciação e nomeadamente a de Rede de Urgência que atrás citei não fica, não pode ficar, à mercê dos desvarios de quem quer que seja e ocupando esse alguém o lugar que ocupar. É uma decisão técnica e nesse contexto tem que continuar. Não é uma decisão de qualquer Instituição ou de sua vontade arbitrária.

E este não é um processo técnico de fusão; é uma opção… Uma desgraçada opção! Foi assim porque quiseram que fosse assim! Alguns! O Serviço de Urgência do Hospital Geral somos todos nós…!

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