Opinião: De Jökulsárlón a Eyjafjallajökull ( 1 )

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A estrada era relativamente estreita, com uma faixa para cada lado. Bermas inexistentes, antes um desnível, talvez de meio metro, em relação ao terreno onde estava construída esta estrada, mais elevada do que a imensa terra deserta.

Deserta no sentido humano. Deserta de humanidade. Deserta de pessoas. Deserta de vegetação. Durante horas não se via ninguém. Nem homens, nem animais, nem árvores. Deserta de vida. Nem humanos nem desumanos. Por vezes, raramente, lá passava uma viatura, com um único passageiro, o condutor. Habitualmente, grandes automóveis do tipo todo o terreno, assentes em grandes rodas, enormes pneus, como nos filmes.

Chovia, apesar de estarmos em pleno agosto, o pequeno automóvel alugado, todo ele estremecia quando se cruzava com aqueles monstros com rodas que ao levantarem a água que se acumulava na estreita estrada, durante alguns momentos, impossibilitava qualquer visualização do que estaria na frente ou nos lados. Não era fácil conduzir por estas paragens. Nestas alturas era mais prudente reduzir, quase por completo, o andamento do automóvel, sob pena de sair da estrada e capotar.

As paisagens eram lunares, quase impossíveis de descrever. Este lugar não deve ser na Terra. De um lado e do outro, desta estrada infinita, sim, porque na realidade era apenas uma estrada sem fim, onde era possível circular apenas no verão, rodeados de paisagens que não se assemelham a nada que nos seja familiar. Rochas a perder de vista, cascatas gigantes, algumas colossais, musgos inimagináveis, por serem tão inusitados, fendas no solo, eventuais ligações diretas ao centro da Terra, escassa vegetação rasteira, vapores vindos do interior da terra, cheiro a enxofre, géiseres lançando para o ar, na vertical, alguns alcançando vários metros de altura, a intervalos regulares, comandados pela Natureza, jatos de água fervente. Muitas planícies húmidas ainda do gelo que tinha derretido com a primavera. No inverno, estas estradas não são transitáveis, o frio, a neve, o gelo, o vento e a noite eterna não permitem. Aqui manda a Natureza. O ser humano é apenas um pontinho insignificante, apesar de os islandeses serem mulheres e homens robustos e de grande porte.

Em Jökulsárlón, no sudeste da Islândia, há um imenso glaciar que está a derreter há décadas, graças aos esforços perseverantes da humanidade em destruir o seu único planeta. Estes comportamentos irresponsáveis estão a dar os seus frutos. O ser humano é persistente e determinado. Já existe uma enorme lagoa, onde flutuam grandes blocos de gelo, de várias tonalidades de azul, predominando o azul em relação ao branco e ao preto, esculpidos pelo tempo e pelo aquecimento global, apresentando retorcidas e flutuantes formas que mais parecem demoníacas esculturas vindas de algum planeta distante e gelado. Um verdadeiro jardim de mágicos icebergues.

Assistir a este espetáculo insólito, com os pés assentes na areia preta, vulcânica, existente nas margens desta lagoa, sugere uma galeria de arte, comissariada gratuitamente pela Natureza, essa grande curadora do planeta. Estamos em agosto, está muito frio e cai a noite. Os poucos seres humanos, únicos seres vivos visíveis, que assistem a este espetáculo, começam a debandar, entrando para as suas enormes viaturas preparadas para circular numa paisagem tão inóspita quanto surreal. Este local não deve ser deste planeta.

Permanecemos mais um pouco a olhar para os destroços que o glaciar, situado mais a norte, vai libertando à medida que vai derretendo, mercê das alterações climáticas. Os grandes blocos de gelo não estão imóveis, antes flutuam e vão-se deslocando, muito lentamente para sul, ao sabor da corrente, em direção ao mar, mesmo ali ao lado.

Uma ponte, rodoviária e pedonal, une as duas margens do líquido canal que liga o lago ao mar, ambos com temperaturas não aconselháveis, mesmo em agosto.

 

Pedro Mota Curto escreve à quarta-feira, quinzenalmente

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