Opinião: O jogo legal da batota

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Bastava uma pessoa não ser estúpida para perceber que tinha de haver um número significativo de clubes, se é que se podem chamar clubes, cujas administrações das SAD comiam noutra manjedoura, para que fosse permitido na liga portuguesa aquilo que é proibido em todas as ligas europeias, designadamente: a negociação dos direitos televisivos pelos próprios clubes; a transmissão, em exclusivo, de jogos em televisões de clubes; e o comentário desportivo de jogos, em canais nacionais, por comentadores-adeptos de apenas de um dos clubes em confronto.

Diz Luís Filipe Vieira, com a sua falta de pudor habitual, que “é tudo legal” nos acordos secretos entre o Benfica e o Aves revelados pelo jornal Público, acrescentando que Porto e o Sporting fazem o mesmo, assim como o Real Madrid e o Barcelona.

Que o Porto e o Sporting façam o mesmo não me admira, caso contrário o silêncio não seria tão ensurdecedor, mas os contratos de cedência do Real Madrid e Barcelona, tal como de grande parte dos clubes europeus e que a Uefa pretende combater e acabar, a partir da próxima época, só na aparência são semelhantes aos contratos secretos entre o Benfica e o Aves revelados pelo Público.

Para as pessoas perceberem a diferença, vou dar um exemplo que toda a gente percebe. É legal faltar ao trabalho com atestado médico? Estou certo que a maioria dos portugueses, porque frequentaram a mesmíssima escola de Filipe Vieira (a escola abrilista do chico-espertismo), responde afirmativamente.

Mas resposta está incorrecta. A resposta correcta é a seguinte: é legal faltar ao trabalho se uma pessoa estiver doente e o atestado médico serve precisamente para atestar esse facto. Agora se uma pessoa não estiver doente, a falta não só não é legal como o atestado médico é um crime. Percebem a diferença? Para perceber, só basta tirar as palas dos olhos…
No caso dos contratos secretos entre Benfica e Aves, a situação é semelhante ao atestado médico fraudulento. Só aparentemente é legal… E porquê? Porque o contrato não é celebrado entre duas entidades autónomas e independentes, nem visa rodar jogadores jovens com o objectivo de desenvolverem e testarem as suas qualidades competitivas. No caso do Aves, como salta à vista desarmada, a administração da SAD, caída do céu, foi lá colocada com o único objectivo de transformar o clube numa barriga de aluguer de um dos outorgantes para que funcionasse como uma plataforma giratória de compra e venda de jogadores.

Segundo Platão, reside precisamente aqui a fronteira entre aquilo que ele considera um povo digno e um povo indigno: “Um povo digno não carece de leis que lhe digam como agir responsavelmente; ao passo que um povo indigno encontrará sempre maneira de contornar as leis.”

É também por esta razão que somos um dos países do mundo com mais leis e, por mais leis que se façam, nunca chegam. Como dizia Tácito, “quanto mais corrupta é a República maior é o número das leis”. Concluindo: o que Portugal precisa não é de leis, nem de novas leis, mas de um povo digno que não permita ser governando, nem dirigido, por gente indigna.

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