Opinião: “iniciativas que contam… Proposta Franco-Alemã”

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Um homem e uma mulher, corajosos, juntam-se, a mil quilómetros de distância, numa videoconferência, fazendo jus a um cenário pandémico, para, num simbolismo de união, a mesma que esteve na base do projeto europeu, apontarem um caminho de futuro à Europa.
Poderiam pela idade ser mãe e filho, mas os caminhos das suas vidas dificilmente se cruzariam antes de ficarem à frente dos destinos dos seus países. Ela, doutorada em física quântica, é a primeira mulher a chefiar um Governo na Alemanha, a primeira chanceler a ter crescido no Leste ex-comunista, a saber russo e a liderar um país reunificado. Heroína improvável, soube como ninguém a importância de uma Alemanha unida. Viveu por isso as tensões sociais, culturais e económicas de um país cortado em duas partes que se juntaram. Ele, filósofo, nascido numa família privilegiada, um homem determinado que gosta de desafiar regras, um desconhecido em quem a França votou para Presidente.
Emmanuel – “aquele com quem Deus está” – odiado pelo movimento de protesto dos “coletes amarelos”, é um europeísta convicto. Angela- “a mensageira”, “o anjo” – a mulher que colhe ódios externos pelo país que simboliza e ódios internos enquanto a “irritante luterana”, responsável pelo acolhimento de dois milhões de refugiados na Alemanha. Anjo e Messias propuseram, na passada semana, um fundo de reconstrução conjunta de 500 mil milhões de euros para o resgate da Europa pós-pandemia. Para o efeito a UE pedirá um empréstimo, que será pago pela UE e não pelos beneficiários, os países (do Sul com dívidas elevadas) mais afetados pela pandemia.
Numa Europa que não soube reagir à pandemia de forma coordenada, que numa situação de crise supranacional revelou, uma vez mais, as suas fragilidades, o futuro joga-se, talvez em última instância, na vontade e força para responder ao pós-pandemia, como um todo. Para isso precisa-se de liderança e a iniciativa do eixo Franco-Alemão é uma iniciativa que conta. “Esta crise é sem precedentes e, para que a saída seja eficaz, requer uma resposta coletiva e, acima de tudo, europeia”, disse Macron. “O objetivo é que a Europa saia desta crise fortalecida, coesa e solidária”, referiu Merkel.
Hoje, no dia em é publicada esta crónica, poderá ter-se (ou não) uma ideia mais adequada de como poderá ser o final desta história. A Comissão terá já apresentado as propostas do orçamento 2021-2027 e do fundo de recuperação pós crise covid-19. A proposta franco-alemã precisa de ser aprovada pelos 27 membros e integrada nos orçamentos plurianuais da UE. Sabe-se que quatro Países “frugais” – Países Baixos, Áustria, Suécia e Dinamarca – recusam o plano de Merkel e Macron, exigindo empréstimos a pagar pelos beneficiários e opondo-se a um aumento significativo do orçamento comunitário.
Para países como Portugal, Itália e Grécia – três dos sete países com maior dívida pública em percentagem do PIB do mundo (acima de 120%) – um futuro de dificuldades com esperança depende exclusivamente da ajuda Europeia. Uma ajuda que, sob a forma de empréstimos, agravará a situação da dívida. Uma ajuda que, a não existir, precipitará a clivagem entre o Sul e o Norte e o fim do projeto Europeu.
“A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
(…)Fita, com olhar esfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.
O rosto com que fita é Portugal.”
Tal como na Mensagem de Fernando Pessoa, a Europa é um corpo só. Desta vez os olhos gregos, o rosto português, não olham em frente para o mar, olham para o coração franco-alemão e para o centro nevrálgico, em Bruxelas. Desejam que a Iniciativa Que Conta, conte mesmo!

(para partilha de informações ou comentários pf
escreva para: iniciativasquecontam@gmail.com)

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