Opinião: Cultura táctica por Marcelo Rebelo de Sousa

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Em finais de 2018, o Presidente da República, naquele jeito popular que o caracteriza, recebeu, no Palácio de Belém, António Simões, o Magriço que fez parte da mítica selecção de futebol que em 1966 conquistou o 3.º lugar do campeonato do mundo, e o jornalista da Sport TV, Pedro Ricardo Martins, para ali gravarem um episódio do programa Cultura Táctica.
Marcelo contou muitas histórias, com o seu costumeiro à-vontade, desde a passagem pela Federação Portuguesa de Futebol em meados dos anos 70 até à gloriosa final do Euro 2016, e acabou por confessar que aquela entrevista era prova de um “mundo de pernas para o ar”, já que Simões fora um dos ídolos que, enquanto jornalista, muito gostaria de ter entrevistado.
Conduzindo a conversa, afirmou-se um entusiasta de desporto (porventura por influência de seu pai, que, no Estado Novo, tutelou aquela área governativa), pelo que, desde cedo, se tornara num “mau praticante” de várias modalidades e garantiu que, ainda que o voleibol fosse a prática em que se mostrara “menos mau”, preferira jogar futebol (a médio esquerdo, para distribuir jogo, claro está…).
Explicou os pormenores da sua inscrição como sócio do Sporting Clube de Braga, clube do seu coração, afiançando que tal facto lhe valera o estatuto de ‘ave rara’, por ser o único Braguista do seu círculo de amigos, e aproveitou para distinguir entre Braguistas e Bracarenses, sendo, os primeiros adeptos, em exclusivo, do Braga, ao contrário dos segundos, que acumulam uma especial afeição pelo Benfica com a paixão pelo clube minhoto.
E acabou por contar uma história – cuja veracidade não foi, porém, capaz de garantir – que alegadamente justificará a cor vermelha dos equipamentos daquele clube. Disse que, tendo então o Braga estreitas relações com o Sporting Clube de Portugal, vestira de verde e branco, para desgosto dos tais bracarenses. E, assim, após uma animada assembleia do clube, terá sido decidida a mudança das fatiotas para vermelho e branco, por forma a agradar a uns por via do nome e a outros por via da cor.
Como já por aqui confessei, sou sportinguista (aliás, de acordo com o critério usado por Marcelo Rebelo de Sousa, serei conimbricense, já que divido a minha afeição futebolística entre Os Verdes de Alvalade e Os Pretos da Briosa) e, por isso, por via desta minha condição (ou porventura porque não gosto de qualquer trejeito ‘feijão-frade’), não me esquecera de tal relato, que, por estes dias, me veio de novo à memória.
Para minha surpresa, o dito episódio encontra-se facilmente no youtube sob o título ‘cultura táctica com Marcelo Rebelo de Sousa’, o que me permitiu confirmar a memória que guardava e da qual, por via da idade, já vou duvidando (confesso!). Assim terá sido: os dirigentes daquele clube, querendo agradar a gregos e a troianos, impuseram a cor encarnada e desse modo contentaram os adeptos dos dois lados da 2.º circular lisboeta.
Os equipamentos são, pois, desde então, ‘encarnados’ – de acordo com os Estatutos do SCBraga – o que indicia a autenticidade da historieta (pois, como se sabe, a equipa do Benfica é conhecida como As Águias ou Os Encarnados) e contraria outra ideia corrente de que a mudança de cor visara apenas homenagear o Arsenal, clube inglês que chegou a ser considerado o melhor do mundo.
Nunca duvidei da arte e cultura do nosso Presidente, mas a sua superioridade táctica não pára de me surpreender.
E, a brincar, a brincar, como quem não quer a coisa, o Professor já garantiu o apoio de António Costa para a corrida presidencial que se avizinha.
É uma manobra menos estrambólica do que foram o seu mergulho no rio Tejo, o dia passado ao volante de um táxi nas ruas da capital, ou a noite gasta a acompanhar os trabalhadores responsáveis pela recolha do lixo, tudo por ocasião da campanha para a Câmara de Lisboa em 1989, mas, desta vez, é bem possível que a sua cultura táctica lhe garanta o único troféu que ainda o seduz e que consiga votos suficientes (mais do que os 70% conquistados por Mário Soares em 1996) para garantir lugar na nossa História como o Presidente mais popular de sempre.

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