A solidão dói mais do que qualquer vírus

Fotos de Pedro Ramos

Mal se dá pela sua chegada. Aproxima-se devagar, apenas a luz a revelar-lhe os traços do rosto e os sinais de um corpo enfiado num sobretudo bege. Maria (vamos chamar-lhe assim) percorre aquele caminho quase todas as noites. Os passos que dá, sabe-os de cor. Esta quarta-feira não é exceção.
É noite cerrada – já passa das 22H15. Maria vai ao Pátio da Inquisição buscar a comida com que saciará o vazio do estômago. O vazio da alma é, por agora, difícil de sossegar.
Aos 49 anos ainda tenta perceber que voltas foram aquelas que a vida deu. Tinha marido, casa, comida, cama. Um dia enviuvou. Ficou sem chão e com dois filhos nos braços.
“Sim, dormi na rua. Não tenho vergonha de o dizer. Dormi na rua com os meus dois filhos”. Durante “cerca de meio ano” andou perdida. Foi o bastante para lhe retirarem os filhos – o mais velho, de 20 anos, entrou este ano no ensino superior.
“Tenho muito orgulho nele. No domingo, Dia da Mãe, vamos almoçar juntos”. Mas continua a sentir-se amputada: perdeu o rasto à filha mais nova, de 12 anos, que foi institucionalizada.
“Nada me dói mais. Não há nada que doa mais”, diz, olhos postos no chão e as mãos cruzadas no peito como se estivesse abraçada ao nada.
Antes do Estado de Emergência que fechou o país a sete-chaves, Maria frequentava um curso de padaria e pastelaria, pelo qual recebia um subsídio. Mas a pandemia deixou o futuro em suspenso.

 

Fotos de Pedro Ramos

Pandemia deixou
pessoas sem suporte
Quando chega perto do CMIS Centro Municipal de Integração Social de Coimbra, há 15 pessoas à porta, numa espera sem ânsia e isenta de dúvidas. São pessoas que não têm casa ou que vivem num quarto. O dinheiro não chega para comprar comida e num quarto alugado não há como cozinhar refeições.
Mas estes homens, mulheres, jovens e menos jovens, não procuram apenas comida. Procuram também uma palavra de conforto, alguém que os olhe sem medo.
No último mês, a ameaça da covid-19 agravou o sentimento de insegurança de quem é mais vulnerável e os pedidos de ajuda aumentaram.
Marco Ribeiro Henriques, coordenador do CASA – Centro de Apoio aos Sem-Abrigo (organismo que gere o CMIS), diz que nas últimas semanas se registou uma maior afluência de pessoas àquele centro.
Numa cidade deserta, a presença destes homens e mulheres nas ruas passou a ser mais visível. As ruas continuam a ser a casa de quem não tem chão e não há portas que se fechem para o isolamento.
Alguns continuam sem perceber porquê. Deixaram de poder ir aos locais habituais – logo eles que têm pouco mais do que a liberdade de viver nas ruas.

(Texto completo na edição impressa)

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