Luís Martins, bombeiro em São Romão e jogador de futebol em Oliveira do Hospital

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O DIÁRIO AS BEIRAS conversou com Luís Martins, médio natural de São Romão, no concelho de Seia, que cumpre a quarta temporada no Oliveira do Hospital. Para além de se destacar dentro de campo (22 jogos e um golo esta época), é ao serviço dos Bombeiros Voluntários de São Romão que assina os golos mais importantes e faz as assistências para quem mais precisa.

P – Há quanto tempo e em que corporação é bombeiro?
R – Desde muito novo, mas, oficialmente há sete anos, porque só a partir dos 18 anos é que podemos ingressar a carreira de bombeiro. Estou na corporação dos Bombeiros Voluntários de São Romão.

P – O que o motiva a ser bombeiro?
R – É uma pergunta difícil, difícil de explicar, porque é uma coisa que se sente, o sentimento de ajuda, de estar presente quando mais precisam, de salvar vidas e/ou objetos ou bens. É isso que me move, ser útil, ir quando mais ninguém vai.

P – Quando decidiu ser um “soldado da paz”?
R – Desde que me lembro, foi algo que sempre quis. O meu pai é a principal razão. Ele também é bombeiro, e eu desde cedo que o acompanhei. Penso que começou aí a paixão.

P – A pandemia de covid-19 tem assolado o país e o mundo. Como tem sido lidar com isso enquanto bombeiro?
R – Ao início, não vou esconder, tive receio, inclusive receio de ir para o quartel. Tivemos que nos adaptar o mais rapidamente a esta situação, tivemos formação sobre o covid-19, e estamos preparados para qualquer eventualidade.

P – Já transportaram/lidaram com casos de pessoas infetadas?
R – Eu pessoalmente ainda não, colegas meus já. Na altura não sabiam que as vítimas que transportaram estavam infetadas, pois não apresentavam sintomas. Mais tarde vieram a acusar positivo, por isso eles também tiveram que fazer o teste e ficar isolados, mas deu negativo e, felizmente, voltou tudo à normalidade.

 

P – Enquanto bombeiro já lidou com situações complicadas, o covid-19 é mais um desafio /teste à vossa resiliência e vontade de ajudar o outro?
R – No dia a dia encontramos situações complicadas, das quais por vezes não nos conseguimos abster e vamos a pensar nelas para casa. O covid-19 é mais um teste à nossa capacidade, como bombeiros e seres humanos. Tenho a certeza que vamos ultrapassar toda esta situação.

P – Um desafio para completar a frase. Ser bombeiro é…
R – Ser bombeiro é proteger o país e a vida humana, é ajudar os outros sem receber nada em troca, é ir quando todos foge e, principalmente, é uma honra.

P – É um dos capitães do FC Oliveira do Hospital, que compete no Campeonato de Portugal. Quais são os “segredos” para conciliar a atividade futebolística com a vida de bombeiro?
R – Por vezes não é fácil, já faltei a treinos porque estava em ocorrências e não conseguia chegar a horas do treino. Mas foram situações excecionais; por norma consigo conciliar, pois com organização tudo se faz. Tento, por exemplo, quando estou escalado ao fim de semana trocar, para não correr o risco de não ir ao jogo, ou de não descansar o suficiente, para ao domingo estar a 100 por cento.

P – Para além de bombeiro, trabalha na pastelaria dos seus sogros. É uma vida sempre “sem parar”?
R – É mesmo sem parar, por vezes não tenho tempo para certas coisas, e quem sofre é a pessoa que tenho em casa, a minha namorada, mas foi a vida que escolhi e tem que se trabalhar.
Só o futebol não chega para viver, nos bombeiros não ganhamos nada, então tenho um trabalho como toda a gente, trabalho de segunda a sábado e o domingo é para o futebol.

P – A pastelaria em que trabalha é em São Romão? Como têm sido os últimos tempos no negócio?
R – Sim, é em São Romão, a “Padeirinhas da Estrela”. Continuamos abertos, todos os dias, apenas nos adaptámos à situação.
Em termos económicos notou-se uma quebra, o serviço é take-away, e o trabalho em si não é muito, custa “a passar o tempo”, porque não há pessoas na rua e os clientes diminuíram.

P – O Campeonato de Portugal foi suspenso a 12 de março. Como têm mantido a forma?
R – Temos um grupo no WhatsApp onde recebemos um plano de treino diário. Cada um faz para si em casa e mais recentemente alterámos o processo e treinamos todos ao mesmo tempo por videochamada.

P – A FPF decidiu “dar por concluídas, sem vencedores, todas as suas competições seniores não profissionais”. Parece-lhe que foi a opção mais acertada? Que opinião tem sobre a decisão da FPF?
R – Nunca é uma decisão consensual, ainda para mais para os primeiros classificados, são projetos e investimentos que vão “por água abaixo”. Contudo, nada, mas mesmo nada, é mais importante que a saúde de todos nós, porque no fundo é disso que se trata.

P – O FC Oliveira do Hospital está na segunda época no Campeonato de Portugal e irá para a terceira temporada nessa prova. O projeto está já consolidado no terceiro escalão do futebol português?
R – É um campeonato muito competitivo, onde qualquer equipa pontua em qualquer campo, existe muito equilíbrio.
Neste momento, acho que já olham para o FC Oliveira do Hospital com outros olhos e não com aquele pensamento que éramos aquela equipa da serra com fraca qualidade e rotinada a descer. Durante estas duas épocas mostrámos muita qualidade, que sabemos jogar futebol e estamos cá. Estamos para ficar durante muitos anos.

P – É natural de São Romão, vila do concelho de Seia, mas joga no município vizinho, de Oliveira do Hospital, há quatro épocas. Que balanço faz da experiência?
R – Tem sido uma experiência muito positiva. Ao início tive receio de não conseguir aguentar a competitividade, o meu pensamento foi: é só craques o que é que eu vou para ali fazer? Mas cedo me afirmei.
Estes quatro anos passaram a correr, quando dou por mim sou um pilar daquela casa e sou um menino amado por toda a gente. Espero continuar no clube por muitos anos, sinto-me bem e feliz aqui.

P – Já jogou com o 8 e esta época está com o 10 nas costas, o que indica que poderá ser um dos pilares do meio-campo e um criativo… como se descreveria em campo?
R – O meu ponto forte, penso, é a visão de jogo e a qualidade de passe. No fundo, a forma de perceber o jogo.
Digo, muitas vezes, aos meus colegas em tom de brincadeira, que os médios centro são os jogadores mais importantes, é ali que o jogo é pensado é ali que o ritmo de jogo é decidido, adoro isto, adoro ter a bola, eu jogo sempre com um sorriso nos lábios.

P – Que mensagem gostava de deixar, primeiro aos oliveirenses e aos seguidores do FC Oliveira do Hospital e, em segundo, àqueles que, todos os dias, necessitam da ajuda dos bombeiros?
R – Aos nossos adeptos quero agradecer todo o apoio que nos têm dado e a forma de como nos acarinharam sempre. Quando dermos conta já estamos de volta aos relvados e podem voltar a “ir à bola” ao domingo.
Para aqueles que todos os dias precisam da ajuda dos bombeiros quero dizer para compreenderem que nós também somos ser humanos, nós também sentimos, nós também temos dor, para nós as situações também custam, mas, de uma coisa podem ter a certeza, estamos e vamos cá estar sempre, a qualquer hora, em qualquer dia, para vos servir de corpo e alma.

P – Tem 25 anos. Quais são as ambições futebolísticas?
R – Vou ser sincero, ainda sou novo mas já não tenho o pensamento de chegar mais longe, já não tenho as ilusões de quando era miúdo.
Quero, isso sim, trabalhar e melhorar todos os dias, a partir daí, o que tiver de ser será, o que eu quero é divertir-me como divirto a jogar e é isso que realmente me importa.

P – Portugal pode ser um exemplo positivo de como lidar e superar este flagelo do covid-19?
R – Toda a gente critica mas a verdade é que é uma situação muito complicada para os líderes do nosso país e eu acho que eles estão a fazer tudo o que podem.
Penso que as pessoas demoraram a acatar as ordens e a perceber a gravidade desta situação, mas neste momento estamos a cumprir tudo e daqui a uns tempos vamos olhar para trás e ter orgulho no nosso país e naquilo que fizemos para combater este flagelo.

Pode ler a entrevista na edição impressa e digital do Diário As Beiras

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