“Diário de Um Morto” – CAPÍTULO VII (Uma pista de comboios)

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Por acaso levava uma boa vida. As crianças eram imensas, as escolas estavam superlotadas, havia a sensação de que o dia de amanhã seria sempre melhor do que o de hoje. Uma altura onde a esperança reinava e transbordava apesar de tudo da pobreza geral. Éramos mesmo muito felizes.

 

Atirávamos pedras uns aos outros, montávamos armadilhas para os pássaros, jogávamos ao peão, e assim se passava o tempo, sempre encardidos e mal cheirosos. Havia também o Muletas, um fulano que tinha perdido uma perna na estiva, e que era nosso alvo de gozo e de muito receio. O gozo que só uma criança obtém ao achincalhar um adulto, e o receio de que, em momento de distracção, ele nos pudesse apanhar e dar-nos uma surra.

 

Durante muito tempo não soube qual era a profissão do meu pai, e pensei que fosse ladrão. Andei uns anos convencido disso e não me importava com tal facto. Ele bem me dizia que trabalhava em computadores, trabalhava em tecnologia, mas nos anos sessenta, trabalhar em computadores era como ser astronauta, era impossível, e eu nem desconfiava para que servia um computador. Eram tão raros os casos de pessoas que trabalhavam em computadores que achei que o meu pai escondia o que efectivamente fazia; de certeza que tinha algo a esconder e só podia ser ladrão, daqueles ladrões a sério, que quebram janelas e descem por chaminés como o Pai Natal, que roubam presuntos e espumante, sempre com uma faca de matar porcos no bolso. A mim a ideia agradava-me, e era muito melhor dizer aos meus amiguinhos que o meu pai era ladrão e tinha uma faca enorme dentro do bolso, do que propriamente afirmar que era astronauta ou que trabalhava nos computadores.

 

Aos quatro anos, acabou-se a partilha entre nós e tive que regressar à Maia para ir estudar para um colégio, mas a minha tribo continuava a ser no tal bairro de estivadores. A vida aí não era pior nem melhor, apenas diferente, e uma criança tem uma capacidade de se adaptar às circunstâncias que não lembra a um adulto. O colégio era pequeno e engraçado, e desde os tipos que ainda não estavam na idade de estudar, como era o meu caso, até ao pessoal que fazia a quarta classe, todos ficavam na mesma sala, rapazes e raparigas, o que era uma grande novidade naqueles tempos, mas que a mim me pareceu completamente normal, tanto mais que o facto de separarem os meninos das meninas era um problema dos adultos.

 

Num universo onde brincar fora de casa não era perigoso, os meus pais acabaram oferecendo-me brinquedos. Algo que um pai deseja para um filho, é dar-lhe tudo aquilo que ele quis e que nunca teve. Então quando se refere a brinquedos, o assunto começa a ficar demasiadamente sério.

 

Eu só tive uma filha, e como preferia pistolas e carros a bonecas, a questão dos brinquedos nunca se colocou, mas agora com o Lima é diferente, completamente diferente. Por exemplo, eu em criança sempre desejei ter uma bela pista de carros, uma pista que ocupasse todo a divisão de uma casa, onde quatro carros pudessem competir em simultâneo, mas nunca tive tal pista. O máximo que obtive foi uma pequena pista em forma de oito, alimentada a pilhas e, quando se acabavam as pilhas, tinha que andar a pedir por todos os santos que alguém me comprasse umas pilhas novas.

 

Assim, estava desejoso de que o Lima crescesse mais um pouco para lhe comprar uma pista de carros para nós os dois brincarmos às corridas, isto é, enquanto eu lhe ganhasse, tanto mais que não gostava de perder o que quer que seja contra miniaturas de gente. Agora terei que passar o testemunho a outros. Não alinhava no “deixa lá ganhar o miúdo que é pequenino”, e a vencerem-me, os putos, seja numa pista de automóveis, num tabuleiro de xadrez, numa competição numa piscina, ou numa mesa de ping-pong terão que vencer com mérito, e a seguir a isso eu nunca mais jogarei com eles.

 

Lá em casa dos meus pais há a história de uma famosa pista de comboios. Devia eu ter um ano de idade quando o meu pai, com o argumento de que o brinquedo seria para mim, adquiriu uma bela pista de comboios, uma pista linda, cheia de modelos de comboios, carruagens, estações, árvores pequeninas, e essencialmente, com um preço muito acima do que aquele que um casal em início de vida e com um filho ainda muito pequenino para cuidar, podia suportar. Mas era algo que o meu pai sempre quis ter e nunca teve possibilidades para isso.

 

Neste aspecto, as mulheres são muito melhores a gerir a economia doméstica do que os homens. A mulher vai às compras se não houver um pacote de farinha dentro de casa, enquanto o homem vai à mercearia se não houver cervejas no frigorífico. Enquanto a mulher prefere farinha às cervejas, o homem, se não possuir farinha em casa, dá-se ao luxo de se aventurar na cozinha de autor e substitui o derivado do trigo por pão ralado, que como todos nós sabemos, é praticamente a mesma coisa. E se não tiver pão ralado, coloca um pão ou umas tostas num triturador. O importante mesmo é que haja cerveja no frigorífico e brinquedos para os filhos.

 

Nessa história da pista de comboios, o meu pai fez aquilo que todo o homem inteligente faz, ou seja, comprou a pista de comboios à socapa da mulher e apresenta o brinquedo como um dado adquirido, com o argumento de que o brinquedo até nem era para ele. E aí há que dar razão ao homem! Não se pode ir comprar uma pista de carros ou de comboios com uma mulher porque elas vão escolher sempre a mais pequena e miserável de todas, e mesmo assim achando que o preço é absurdo. Não valorizam o tamanho da distância percorrida pelos carros ou comboios, estão-se a marimbar para as pontes, querem lá saber das árvores de plástico. São umas materialistas da pior espécie quando estão a adquirir uma pista de carros ou comboios, sempre a fazer contas à vida e ao dinheiro como se isso fosse o mais importante quando se adquire tamanho futuro divertimento.

 

Nesse dia em que o meu pai comprou a pista de comboios, saiu mais cedo do trabalho, passou numa loja de brinquedos, comprou a pista mais bonita de todas, e depois foi de carro buscar a minha mãe ao seu local de trabalho. Muito orgulhoso, mostrou o brinquedo ainda dentro da caixa à minha mãe, e como qualquer mulher que tinha que gerir o orçamento familiar, perguntou:

  • E quanto é que custou?

 

Existe uma ancestral técnica masculina que consiste em dividir por dois o preço daquilo que efectivamente foi bastante caro, quanto mais não seja, para dar a entender à concubina que a nós ninguém nos engana no que se refere a negócios, e que só compramos a pista porque era mesmo uma pechincha.

 

Mesmo assim, e já com 50% de desconto, a minha mãe ficou fora de controlo, e o meu pai bem argumentava que não era uma pista qualquer, tinha árvores, tinha pontes, os comboios circulavam a alta velocidade e era a melhor pista do mundo. Tamanha foi a zanga que a minha mãe, achando-se desconsiderada e fazendo contas à vida e, para não aturar o meu pai, resolveu sair do carro e ir para casa de transportes públicos só para espairecer e pensar na sua vida e como é que conseguiria fazer o dinheiro esticar até ao final do mês.

 

Claro que quando chegou a casa, o meu pai já lá estava há bastante tempo e já tinha a pista toda montada e os comboios a circularem e a fazerem barulhos como os comboios verdadeiros. O meu pai brincou a noite inteira com os comboios, mas no dia seguinte, as pazes já estavam feitas, porque afinal a prenda até era para mim, e o acto do meu pai era demonstrativo do grande afecto que nutria pelo filho. Embora, na verdade, eu nunca tenha brincado com a pista de comboios, mas ter arcado com as culpas que quando se avariou definitivamente. “Só pode ter sido o Pedro, ele ainda não tem idade para brincar com pistas de comboios e deve ter avariado qualquer coisa”, dizia o meu pai.

 

Aos cinco anos tive a minha primeira namorada, uma garota mais velha que eu, muito mais velha, já com mais de seis anos. Desconfio é que ela não soube que namorou comigo, tanto mais que nunca lhe declarei amor. A criança tinha a responsabilidade de me levar a casa e, para não me perder, íamos de mão dada todo o caminho e aquilo parecia-me bastante sensual, até que um dia fui atropelado quando resolvi furtar-me à mão dada e atravessar a estrada para ir ao encontro do meu avô materno. Felizmente, era a estrada que unia o Porto a Braga, e tamanho era o trânsito que era impossível circular-se depressa naquela estrada apertada e cheia de paralelos.

 

O carro acertou-me em cheio, atingiu a minha face, rebentou-me um tímpano, mas fiquei consciente e resolvi fugir para não ter que apanhar uma surra da minha mãe. E num quadro de miséria, corria eu desalmadamente e a sangrar, o meu avô e a minha namorada atrás de mim a tentarem-me alcançar e ainda o senhor que me tinha atropelado. E conseguiram capturar-me! E sempre fui um puto com sorte: fui atropelado por um carro de um grande magnata do Norte conduzido pelo seu motorista, com o magnata abancado no banco de trás. Fui para o hospital num enorme Rolls Royce, em grande e como manda a sapatilha. Enquanto estive no hospital, a minha dieta alimentar foi à base de chocolates, patrocinados pelo magnata que me visitava todos os dias em casa pois estive poucas horas no hospital. O meu atropelamento foi das melhores coisas que me aconteceu na vida, e ainda hoje me recordo do senhor sentado numa cadeira a dar-me chocolates e eu aos pulos de felicidade em cima da cama.

 

Já tanta sorte não tive quando saí em voo do carro do meu pai devido à força centrífuga. O raio do carro tinha uma porta traseira que não abria, ninguém conseguia abrir a sacana da porta, e eu, puto, entrava pela porta oposta, percorria todo o banco de trás e encostava-me cheio de preguiça à porta que não abria. Mas, numa curva apertada, a porta resolveu abrir e eu saí disparado do carro para a estrada. Apesar do aparato de ter caído numa ribanceira, não tinha mazelas de maior, estava consciente mas bastante parvo, não dizia coisa com coisa.

 

Depois de tudo sarado, levantou-se uma questão importante e pertinente: como é que um puto de tenra idade tinha conseguido abrir uma porta avariada de um carro, quando quase uma dezena de mecânicos de automóveis tinham, em vão, tentado fazer o mesmo? Foi um ultraje para os especialistas e uma grande façanha para mim. Na verdade foi tudo uma questão de sorte, estar encostado à porta no momento certo e ter sido projectado pelos ares a mais de cinco metros de distância foi o meu momento de glória efémera. E efémera porque passados uns dias, os meus pais deixaram-me um pouco de tempo no carro enquanto foram tomar um “cimbalino” no café Turista, e eu resolvi passar de mecânico a piloto. Accionei o motor do carro, e aos soluços, fui embater contra um parque de estacionamento de bicicletas. Nesse dia passei do oitenta para o oito, de um grande mecânico para um miserável piloto.

 

Pior mesmo, foi quando resolvi saltar de uma escada enorme para o chão munido de um saco de plástico, pensando que tinha vocação para pára-quedista. O saco de plástico era o meu pára-quedas que não abriu em tempo útil. Mais uma carga de porrada como resultado final. Os tempos não estavam fáceis para a minha educação, mas de repente tudo mudou.

 

No grande buraco que tinha escavado no quintal e que me servia de esconderijo, enterrei todo o meu espólio mas não as recordações, pois tinha chegado o momento de ir viver para Coimbra.

 

Mas regressemos ao dia de hoje, ao dia da minha morte.

 

É meio-dia e meia hora. Boa hora para ir almoçar. Como habitualmente, vou buscar a Ana ao serviço, e enquanto ela não se despacha, fico no carro a fazer um Sudoku que vem no jornal que normalmente compro. É com um pouco de vaidade que vos garanto que sou o responsável pelo facto de um importante semanário que sai aos Sábados ter aumentado os quadrados desse popular jogo de origem japonesa. Isso aconteceu porque um dia fui almoçar com o director desse jornal, e em conversa queixei-me que apesar do jornal ser muito bom, uma das minhas referências, os Sudokus eram muito pequenos. Ele respondeu-me que se iria inteirar da necessidade dos quadrados serem maiores, e o certo é que passadas poucas semanas, o tamanho do jogo aumentou. Só por esta contribuição para a sociedade, valeu a pena viver. Há gente que salva gente, grandes escritores com obra feita, abraços solidários, pensadores proeminentes, e eu, sou o responsável do tamanho do Sodoku no jornal Expresso. Pelo menos, ninguém me tirava essa vaidade até prova em contrário. Saiu o Henrique Monteiro e lá voltaram os Sudokus a ficarem pequeninos.

 

Como quase todos os dias úteis da semana embora eu, por acaso, desse mais utilidade aos Sábados e aos Domingos, vou almoçar a casa da minha sogra, e esse foi um desses dias. Um almoço rápido mas na companhia da família, como ainda se consegue fazer em cidades de média dimensão.

 

Curiosamente, depois do almoço comecei a sentir-me muito cansado, um pouco adoentado. Levei a minha mulher de regresso ao serviço, e resolvi telefonar para a empresa dizendo que estava um pouco mal disposto, que ia descansar um pouco para casa e regressaria assim que me sentisse melhor. Não regressei!

 

Fiquei um pouco preocupado com o meu estado. A minha sogra vangloria-se, e com mérito de que cozinha pessimamente, mas quem costuma cozinhar até é a Ester, a senhora que lá trabalha todos os dias. De maneira que envenenado não estou, pensei eu. Adoro a minha sogra, é uma excelente pessoa, mas na cozinha é um desastre, e ela própria reconhece que o é, e sempre que vai para confeccionar qualquer prato, fá-lo de forma bastante contrariada.

 

Deitei-me no sofá, bastante indisposto e com a nítida sensação que não iria melhorar. Devo estar branco e começam a faltar-me as forças.

 

 

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