Opinião: Não é uma guerra, ou uma oportunidade. É uma ordem.

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Não estamos a viver uma GUERRA, mas antes uma transformação sem precedentes na nossa forma de vida. Infelizmente, por várias razões, essa é uma transformação com uma enorme perda de vidas humanas. Por isso, é altura da ciência e dos prestadores de cuidados de saúde para minimizar essas perdas. Isso implica solidariedade, total entrega e dedicação, o que significa manter o espírito crítico e a capacidade de refletir sobre a razoabilidade de medidas tomadas.

No entanto, é importante que se diga, com serenidade e frontalidade, que o país reagiu muito tarde a uma ameaça sem precedentes. Muitos desculpam-se com a frase: “ninguém estava preparado. Veja a desgraça que vai pela Espanha, Itália e até Alemanha. Se eles não conseguiram evitar, como é que nós o faríamos?”. Portugal teve tempo para aprender e antecipar medidas, no sentido de minimizar o impacto no país e preparar melhor o SNS. Não o fez, desvalorizou e contemporizou, havendo declarações de responsáveis a tranquilizar os Portugueses. Em consequência, o país:

1 )Demorou muito tempo a perceber que teria de controlar as fronteiras, para saber de onde vinham as pessoas, para onde iam, qual era o seu estado geral e ficar com contactos. Isso era precioso para perceber como atuar mais à frente e ter uma informação detalhada da população;
2 ) Demorou muito tempo a perceber que tinha de controlar o movimento de pessoas e mercadorias no país. Infelizmente, percebemos que o Estado não está preparado para atuar de forma rápida, no interesse do bem-estar da população. O episódio da convocatória do Conselho de Estado, para uma 4ªa feira, anunciada 3 dias antes, e uma enorme sensação de impotência por vazio-legal, é bem prova disso;
3 ) Demorou muito tempo a antecipar que o SNS precisava urgentemente de ajuda e, que, numa situação grave, o SNS entraria em colapso e não poderia responder à população. A Chanceler Merkel foi muito clara no discurso à nação Alemã: era o maior desafio depois da 2ª guerra mundial e o SNS Alemão, apesar de grande qualidade, não iria aguentar o impacto que se prevê;
4 ) Demorou muito tempo nas medidas para colocar as pessoas em casa. Eu sei, é uma decisão complicada, porque o impacto na economia será brutal. O colapso económico também mata, pelo que percebo a dificuldade em decidir. Mas, os Governantes, nacionais e estrangeiros, nomeadamente os que mandam na EU, têm responsabilidades acrescidas, relativamente à restante população, pelo que têm mesmo de antecipar e tomar medidas preventivas. Medidas que sejam o máximo possível participadas por vários países. Medidas mais drásticas deveriam ter sido tomadas para evitar parar totalmente a economia. Agora, não sei, seja o que deus quiser, mas temo que a paragem total será inevitável;
5 ) Neste momento, não tendo feito nada de significativamente diferente do que fizeram a Itália e a Espanha, a lógica obriga a que esperemos impactos do mesmo tipo. Por que razão haveria de ser diferente em Portugal?

Em tudo o resto, os esforços devem ser concentrados no sentido de MUDAR o mundo e não em RETOMAR a vida como ela era. É altura dos idealistas, dos reformistas, daqueles que imaginam um mundo diferente, para que façam propostas e promovam transformações.

Esta também não é uma oportunidade para MUDAR. Tivemos várias oportunidades e desperdiçamos todas: a vida não podia parar e vivíamos numa permanente fuga para a frente. Chegamos a um ponto de não retorno, isto é, ao fim de um caminho que se tornou insustentável.

Não é necessário um plano Marshall que coloque tudo como estava, mas sim um plano Novo Milénio, gerido a nível mundial, que discuta, de novo, o nosso papel no planeta, a forma como nos relacionamos com ele e a forma como nos organizamos. É a altura da ciência, do conhecimento, da educação, da cultura e de uma nova visão sobre a vida e sobre o mundo.

Não, não estamos em GUERRA. Essa já perdemos, não há forma de a ganhar, nem isso nos interessa nada. Estamos numa encruzilhada e enfrentamos transformações críticas. Não é possível uns terem tudo, muito poucos, e outros nada, a esmagadora maioria. Não é possível abandonar grande parte do mundo à sua sorte, virar as costas e fazer de conta.

Este vírus demonstrou serem obsoletos todos os mecanismos que fomos desenvolvendo: em Portugal, a organização do Estado parece totalmente obsoleta e impreparada. Não é uma GUERRA. Não é uma disputa violenta. É o COLAPSO de uma forma de vida que se tornou insustentável. É altura de falar, de debater o que queremos para o futuro e promover as transformações. Somos capazes de muito melhor do que isto.

Nota: Ontem, o Conselho de Ética Espanhol, chamado a pronunciar-se perante o colapso do SNS Espanhol, emitiu um parecer em que diz: “… na hora de escolher [quem salvar], existem dois aspetos a ter em consideração: quantidade e qualidade, ou seja, deve salvar-se os que tenham maior probabilidade de vencer a doença e, depois disso, manter uma boa qualidade de vida”. A natureza, de forma brutal, a realidade, esmaga sem piedade as nossas mais profundas convicções e obriga-nos, com a sua magnífica força, a relativizar até aquilo que considerávamos valores civilizacionais.

Pode ler a opinião de Joaquim Norberto Pires na edição em papel deste fim de semana, 21 e 22 de março, do Diário As Beiras

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