Opinião: Finalmente vou ser pai

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Agora que já morri, posso contar-vos a minha história. Desde que finalmente se compreendeu (os alemães foram os primeiros, no início de 2020 ) a existência do meu direito fundamental a uma morte autodeterminada, que o Estado deve assegurar sem a restringir ou imiscuir-se nos meus motivos, eu consegui calmamente planear a minha morte, numa decisão livre, informada, consciente e voluntária. Vou então contar o que fiz.

Toda a vida quis ser pai, era o meu sonho. Mas nunca quis ter o trabalho de criar uma criança, muito menos sozinho. Também nunca quis ter nenhum relacionamento sério com alguém. Foi isso me permitiu viver uma vida desafogada, viajada, sem restrições. Plantei árvores, escrevi livros, só faltou mesmo ter filhos. Aproximando-se a idade mais avançada e que fisicamente me impediria mesmo de ser progenitor, decidi ir a uma clínica e crio preservar o meu sémen. O tempo foi passando e não tive a sorte de encontrar alguém, dentro de um prazo que tinha previamente estabelecido.

É que decidi antecipar a minha morte, tendo escolhido o momento para o fazer. Pensei seriamente no assunto e o maior problema com que me deparava era não ter qualquer herdeiro e não queria de forma alguma que a minha herança fosse para o Estado, nem pretendia doar o que tinha em vida. Seria, para mim, uma solução que iria contra todas as minhas convicções. Vai daí pensei: e se alguém conseguisse ter um filho meu após a minha morte? Fui então à clínica onde tinha deixado conservado sémen suficiente para 10 inseminações e manifestei em documento próprio de consentimento informado e ponderado que era meu desejo claramente estabelecido realizar um projecto parental (o sonho da minha vida), por intermédio de inseminação do meu sémen depois de eu morrer.

Gravei a minha eutanásia, e antes de morrer tudo expliquei e foi verificado por médicos e outros especialistas. Todos declararam a conformidade da minha vontade. Foi então colocado um anúncio em busca de possíveis mães para os meus filhos: as candidatas tinham de ser licenciadas e solteiras e não podiam ser homossexuais, estrangeiras, católicas, de raça diferente da minha ou serem portadoras de qualquer deficiência física ou mental (algo que devia ser verificado até à 3ª geração). Enquanto houvesse sémen disponível, era destinado a gerar os meus filhos.

Foi desta forma que consegui, já morto com a dignidade que a lei me oferece, ser pai de 10 filhos, que dividiram a minha herança. A cada um deles coube 1 milhão de euros e 1 apartamento, onde vivem com as mães, algumas com mais filhos. São todos eles a minha família, uma vez que foi possível cumprir a minha vontade de poder amar post mortem e em respeito pelas minhas fortes convicções e valores como a partilha (da herança) e a consanguinidade (do meu material genético).

Os meus filhos não me conhecem, nem conhecerão. Acho mesmo que muitos deles nem se conhecem entre si. Contudo, cumpri o meu sonho à sua custa, pois eles são filhos de um pai que não tiveram, nem conheceram. Não passaram de um instrumento do meu egoísmo em vida, inserido numa sociedade centrada no indivíduo e na sua vontade. Uma sociedade que não valoriza o altruísmo, que noutros tempos chegou a ser a essência da paternidade.

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