“Diário de Um Morto” – A minha aldeia (Capítulo IV)

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CAPÍTULO IV – A MINHA ALDEIA

 

A Académica não foi o meu primeiro amor, foi o segundo, mas rapidamente passou a ser maior deles todos. Quando vim viver com os meus pais para Coimbra, o meu clube era o Leixões, e gostava tanto do Leixões que no meu quarto tinha pendurada uma bandeira desse clube. Para ajudar ao agrado, há que referir que o meu pai foi jogador de futebol do Leixões, numa altura em que um jogador de futebol de média qualidade não ganhava qualquer salário, mas vendia-se por um emprego.

Vivi grande parte do meu tempo de criança numa aldeia do concelho de Matosinhos, Santa Cruz do Bispo. Esta aldeia não era uma aldeia típica, claro que tinha carros puxados por bois, propriedade dos poucos agricultores existentes, mas essencialmente tinha armazéns, imensos armazéns de negócios importadores e exportadores, tanto mais que a aldeia fica nas proximidades do porto de Leixões, e numa completa desorganização urbanística conviviam casas, prédios, armazéns, oficinas de reparação de automóveis, algum comércio a retalho, estradas largas que de repente ficavam estreitas, padres e prostitutas, onde o leite se adquiria na leitaria, mas ao lado existia uma loja especializada em candonga. Era o mundo inteiro em pouco espaço de terreno.

 

Mas não era apenas o porto de Leixões que trazia grande confusão à aldeia. À mesma distância, só que para norte, está o Aeroporto de Pedras Rubras, actualmente Sá Carneiro, onde todos os aviões sobrevoam a aldeia a baixa altitude, e com um barulho infernal de fazer quebrar os vidros das janelas para poderem aterrar. E o aeroporto também movimenta muita gente e muita mercadoria contribuindo assim para o desenvolvimento de uma aldeia com identidade muito própria e com o sangue à flor da pele.

 

Os meus avós paternos e maternos residiam nessa aldeia e eu era partilhado por ambos. Os meus avós maternos viviam numa enorme casa de três pisos, cheios de quartos e de histórias, já tinham sido abastados mas a sorte um dia acabou e pouco mais lhes restavam que o dinheiro para o dia-a-dia, a casa com um enorme quintal, e mais uns poucos terrenos que seriam vendidos em caso de necessidade.

 

O meu avô era uma figura austera, magro e seco, careca desde muito novo, culto e cultivava uma certa superioridade sobre a vizinhança. A minha avó materna não era bem a minha avó materna, mas era como se fosse. Quando a minha avó morreu, o meu avô casou com a cunhada, com a irmã da defunta, e portanto, para mim era a minha avó, embora me fizesse confusão tratá-la por tia-avó.

 

E eu passava lá bastantes dias da semana, durante os quais o meu avô meteu na cabeça ensinar-me a ler apesar de eu só ter três anos de idade, e foi assim que aprendi a ler, folheando as páginas do “O Primeiro de Janeiro”, um vespertino nortenho, especialmente através da banda desenhada do “Zé do Boné”. Acho que passou um ano a ensinar-me a ler, mas aos quatro anos já soletrava, não porque fosse especialmente dotado, mas sim, porque o avô Chico, sentado, me pegava ao colo e lia-me em voz alta as notícias.

 

A casa desses meus avós era um bocado assombrada e eu dormia no quarto onde tinha falecido uma tia muito afastada. Apesar da naturalidade com que era encarado o facto de eu estar deitado no derradeiro leito de uma pessoa, a mim não me deixava muito tranquilo, e às vezes sonhava com a senhora, e nos meus sonhos ou pesadelos de uma criança de quatro anos, via-a a reivindicar a cama, a dizer para me chegar para o lado, ou a olhar para mim de forma intrigada. Mas o dia acabava por despertar e nenhuma mazela brotava do meu corpo.

 

Os pequenos-almoços ao raiar do dia eram muito intrigantes: sopa com broa! Sopa com broa para toda a gente, tanto mais que só voltava a ter autorização para comer por volta do meio-dia. As manhãs eram longas, tão longas e felizes como obtém uma criança apesar, de brincar sozinha.

 

Às vezes apareciam por lá uns primos meus, especialmente nas férias de Verão, que se tornavam logo grandes compinchas das maiores patifarias. A mais comum de todas era atirar pedras às galinhas que viviam no galinheiro. Como elas estavam protegidas por uma rede a toda à volta, o melhor era mesmo atirar as pedras ao ar e fazer uma espécie de chuva de meteoritos para ver se alguma delas quinava, e sempre que uma era atingida e finava depois de andar meia hora atordoada, os nossos pequenos corações disparavam de alegria.

 

As galinhas tinham as suas vantagens, e uma delas é que não ripostavam às pedradas de que eram alvo. Depois de sobreviverem a uma pedrada na cabeça, às vezes aguentavam com a segunda e continuavam impávidas na sua vidinha. Mas um dia, e há sempre um dia em que as galinhas se lixam, havia a degola geral, umas seis ou sete galinhas eram decapitadas como a Maria Antonieta, mas com muito mais velocidade de ponta após a cabeça perdida. Eu gostava de assistir à matança, e até antecipadamente marcava lugar, sentado numa pequena cadeira junto ao galinheiro para não perder pitada do ato solene.

 

Um dia, de noite para o dia, as galinhas apareceram quase todas mortas, vítimas de um salafrário que era perdido de amores por galináceos. O indivíduo em questão até já estava referenciado pelas autoridades, mas não havia propriamente uma legislação contra o facto de um tipo atentar contra o pudor das galinhas, e o máximo que se conseguiria era que o fulano pagasse os prejuízos dos seus devaneios e ser alvo de gozo público. Chato não era o tipo gostar de ter relações anais com as galinhas e patos, chato era o tipo tuberculoso andar a mendigar de porta em porta, todos os dias, uma esmola para ir passar quinze dias de férias nas termas, porque afinal, era mais compreensível e causava menos transtorno a violação de aves do que um tipo a pedir-nos uma esmola para a sua cura.

 

E agora tentar explicar a uma criança que ainda não tinha despertado para a sexualidade, que havia um fulano da aldeia que colocava o pénis dentro das galinhas a fim de obter gozo com isso? Não foi fácil nem eu estava a perceber.

 

Percebi uns anos mais tarde e fiquei bastante admirado com a potência do homem. Que tivesse violado uma galinha e apesar do mau gosto, não me admiro! Que tivesse violado duas galinhas na mesma noite, digamos que o tipo tinha genica; violar três galinhas significava que o tipo amava mesmo os animais; mas abusar dos corpos de vinte galinhas numa só noite e depois matá-las, deve ser algo digno de um recorde regional. Contudo foi o que aconteceu.

 

Havia também um excelente divertimento que só lembraria a crianças de tenra idade. O quintal da casa do meu avô era confinado por muros muito altos, verdadeiras muralhas, pelo menos para mim e para os meus primos, mas havia um local que tinha uma pequena escadaria em pedra que levava a uma espécie de miradouro no cimo do muro. À frente desse miradouro existia uma paragem de camionetas do troço que unia a Maia a Matosinhos, e sempre, de hora a hora, parava a carreira para levar e despejar gente.

 

Como os muros que nos enclausuravam também nos protegiam, vinha mais uma vez à baila a vontade de atirar pedras ao povo. Não sei porquê, mas passei grande parte da minha meninice à pedrada, mas lá que era muito divertido, lá isso era. E naquele caso concreto, a luta era titânica, tanto mais que os operários e as peixeiras respondiam na mesma moeda, tentando alvejar-nos à calhoada. Era uma forma de passar o tempo quando o autocarro se atrasava.

 

A coisa corria de feição até que um dia, uma multidão em fúria se dirigiu à porta da propriedade, para tirar satisfações. Foi uma confusão enorme mas sabíamos que estávamos protegidos pelo meu avô, pessoa que não se atemorizava com essas coisas, e que estava perfeitamente convicto que duas ou três crianças, se porventura tinham atirado pedras à populaça, de certeza que tal acto tinha sido motivado por uma reacção a provocações.

 

E o meu avô não era fácil, valia bem que todos eles juntos! Tinha combatido a favor da república e ideologicamente era um anarquista. Era tão mal considerado na aldeia que até os padres, em plena Páscoa, evitavam que o Compasso parasse à porta da sua propriedade para não serem vítimas de injúrias e insultos, e a minha mãe e as minhas tias tinham que ir beijar o Senhor em casa alheia.

 

No quintal, que era muito maior aos olhos de uma criança que aos olhos de um adulto, trabalhava a Rosalinda, uma bruxa velha! Era bruxa no aspecto, na sujidade, nas roupas negras de luto pelo marido, e alcoólica. Trabalhava de sol a sol, acompanhada de um garrafão de vinho, e com um sorriso que só as desdentadas conseguem exprimir; pedia beijos ao neto do patrão de forma terna e carinhosa. Em abono da verdade, a Rosalinda nem devia ser velha, tanto mais que tinha um filho pouco mais velho que eu, mas a pobreza extrema envelhece muito, demasiado, faz velhas pessoas de trinta anos, que estão mais preocupadas em sobreviver do que com questões puramente estéticas.

 

Fui duas ou três vezes a casa da Rosalinda acompanhar o meu avô que, ao aperceber-se que ela não estava a trabalhar no campo, ia tomar-se de satisfações. Existem noites difíceis para todos, e a Rosalinda, quando não lhe chegava o garrafão que bebia enquanto trabalhava, bebia o seguinte no lar, e depois custava-lhe a acordar.

 

Nem era preciso bater à porta, bastava entrar e encontrá-la, com a mesma roupa que trabalhava no campo, a dormir numa cama a desfazer-se e completamente ressacada. O filho em pânico, não com intrusos, mas porque sabia desde muito novo, que o pouco sustento da casa, a sua miserável existência, dependia do meu avô. Uma casa miserável, onde chovia lá dentro em dias de chuva, e onde os raios de sol furavam o telhado e batiam nos olhos de quem estivesse a dormir. Na altura a vida era assim mesmo, havia humanos e sub-humanos, e o efeito não causava impressão, porque o que era preciso, era colocar de novo a Rosalinda a trabalhar, ressacada ou não. A dignidade humana era um luxo, a contratação e propriedade eram conceitos muito próximos.

 

Havia momentos épicos, nessa altura. Um deles era a ida ao barbeiro que se encarregava de nos colocar carecas. Com três anos, eu ficava careca de dois em dois meses, segundo o meu avô, dada a vantagem de se poderem identificar os piolhos no couro cabeludo, tanto mais que de cabeludo não tinha nada. O segundo momento épico era visitar uma tia-avó meio louca, que vivia a cerca de cinco quilómetros de casa dos meus avós maternos. É claro que detestávamos lá ir, para mim era como quem me matava.

 

Essa minha tia-avó, cujo nome não me recordo, era casada com um fulano que tinha a mania de que era polícia sinaleiro. Mal chegávamos ao cruzamento perto da casa onde essa minha avó tia morava, lá estava o indivíduo sentado num muro e com um apito na boca a comandar o pouco trânsito que passava por ali. Sempre me senti intimidado pelos loucos, por gente fora do vulgar, pelo fora do normal mesmo que isso fosse a normalidade intrínseca dessas pessoas.

 

Chegado a casa da minha tia-avó, que vivia numa casa também enorme, ela repenicava-me com beijos, daqueles que deixam a cara completamente salivada, pegava-me ao colo, dava-me três voltas no ar como se estivesse a analisar um leitão, e concluía que eu era um rapagão bonito.

 

A casa era javarda. Como a senhora era meio louca, as galinhas viviam em open space, entravam dentro da casa e cagavam em cima dos sofás numa convivência harmoniosa entre todos os seres vivos da terra. Em termos de ecologia, nem estou a ver melhor simbiose. E eu doido por sair de lá e a minha tia-avó louca, a tentar enfiar-me bolachas pela goela abaixo e eu pronto a vomitar perante tamanha imundice.

 

Quando o pesadelo estava a terminar, o sinaleiro apercebia-se que havia movimentações em casa dele e com o apito cumprindo a sua função, corria em direcção ao lar para também entrar na festa. E era nesse momento que o meu avô começava a ficar irritado e também com vontade de sair dali. Iniciava por descompor a irmã louca por causa da imundice da casa, e depois apanhava por tabela o sinaleiro. Ouviam ambos, com a cabeça baixa e em silêncio a repreensão do meu avô, as galinhas recolhiam aos seus aposentos, e depois de nós sairmos com a noção do dever cumprido, regressava de novo o manicómio lá a casa.

 

Havia também uma tia-avó que costumávamos visitar, a tia Micas do Barbeiro. Dessas visitas eu gostava, a tia Micas tinha uma casa nova e asseada; com ela vivia o marido, que tinha sido barbeiro e sempre que entrávamos, éramos brindados com um sonoro “olá, bom dia” de um papagaio brincalhão. Eram tardes calmas a devorar deliciosos bolos, a partilhar algumas fatias com o papagaio, ao mesmo tempo que lhe tentava fazer patifarias.

 

Aquilo que a tia Micas falava, era compensado pelo silêncio do barbeiro que, apesar de tudo, era muito simpático e solícito. Há muito que ele tinha deixado de ser barbeiro para se dedicar à pintura naif e com bastante sucesso, expondo anos mais tarde em imensas galerias e inclusivamente no Casino do Estoril. Nunca apreciei pintura naif, daquelas cheias de cores, onde a perspectiva e proporções deixam muito a desejar, mas o senhor tinha bastante sucesso.

 

Adorava de lá ir, e depois tinham filhos e netos muito simpáticos com excelentes brinquedos.

 

A casa do meu avô não era só do meu avô. Vivia também uma outra tia-avó com o marido, guarda prisional em Custóias. A casa era suficientemente grande para raramente nos encontrarmos embora eu gostasse imenso da tia Tina, que sem dúvida cozinhava melhor que a minha avó, sempre mais dedicada a fazer rações de combate do que propriamente comida caseira. A tia Tina era uma avó como vem nos livros, muito simpática, boa cozinheira e bonita. Já o marido era mais reservado, corpulento e de poucas falas. Tinha era uma bela colecção de espingardas que às vezes nos deixava apreciar, e acabava por ser também boa pessoa, com ele estávamos protegidos. Os filhos e os netos viviam próximos e vinham visitá-los com frequência. E eram sempre de festa esses momentos. Era uma família como as relatadas nos livros infantis.

 

O marido, apesar de austero e de poucas falas, era viciado em caça, e por causa disso foi motivo de gozo durante alguns anos. É que ele gostava tanto de caçar que até sonhava com isso. E um dia, num sonho, imaginou que estava a caçar perdizes e coelhos, e de repente, na mesma cama, a tia Tina sentiu a perna molhada. “Pensei que estava a caçar, senti vontade de urinar e confundi-te com uma árvore”, justificou envergonhadamente o cônjuge. O episódio podia ter ficado por aí, mas no dia seguinte, logo de manhã, a tia Tina resolveu contar, em tom de gozo, a brincadeira, para grande irritação do marido. E eu a ouvir tudo e desejoso de ir de seguida contar aos meus primos. Ficou-lhe o estigma de um dia ter urinado na cama e eu sempre que o via, lembrava-me desse episódio, a prova de que até os homens fortes possuem um ponto fraco.

 

O meu avô materno, como já referi, tinha sido um homem rico mas que perdeu quase tudo, segundo dizem enganado pelo sócio e também por alguns investimentos mal calculados. Porém, nunca perdeu o ensejo de voltar a ser de novo rico. E já que não trabalhava nem tinha meios de investir ou arriscar, todos os anos no seu aniversário, os meus pais e os meus tios, colectavam-se e ofereciam-lhe um bilhete da Lotaria Nacional para a semana seguinte. E era uma semana fantástica, de tão certo estava o meu avô que iria ganhar o prémio. Sonhava com projectos; ajudar os filhos, comprar os melhores brinquedos para os netos, fazer obras na casa, e o melhor prémio era sempre essa semana de esperança e de sonhos!

 

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