Opinião: Nas margens do nonsense

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Agora que o real, recriado sobre o foi soprado por um hacker, nos choca pelo sem sentido dos que os momentaneamente poderosos quiseram que acreditássemos, obrigando ministros a decidirem coisas contra natura para que nos acomodássemos às verdades, logo as que alguém lhes impõe de outras paragens, também não nos choca que alguém tenha escrito:

“Estas margens que encantaram o espírito altamente artístico de madame Laura Pernon, duquesa de Abrantes, mulher de Junot, na sua viagem em Portugal, em 1808, e às quais a formosa e inteligente viajante chama – ‘aquelas margens encantadoras do Mondego e maravilhosos arrabaldes de Coimbra, cuja beleza rivaliza com tudo quanto Espanha pode oferecer ao estrangeiro’”1 .

Quem escreveu este texto nem sequer reparou que a mulher de Junot trazia com ela os saqueadores de um país e a miséria que trazia a fome às cidades e campos de um Portugal à deriva e ia ser devastado até Março de 1811, continuando depois à deriva até que a Revolução Liberal de 24 Agosto de 1820 lhe deu algum alento.

Agora que estamos sob o domínio de forças que nos impõem a desertificação do nosso território interior e o envelhecimento da nossa população, assistimos a um desperdício obsceno de alimentos que a nossa agricultura continua a produzir pois as árvores continuam lá embora os proprietários as tenham deixado ao abandono.

Falam-me por isso de azeitonas que ninguém colheu e de azeite que por consequência não foi produzido, de maçãs, peras, marmelos e outros que ninguém colheu e por isso não foram consumidos, transformando-se em estrume que vai adubar estas árvores barbaramente abandonadas, agravando os problemas da nossa economia.

Apesar disso, alguns economistas e outras criaturas tidas como tal continuam a dizer que é tudo normal, anunciando um mundo melhor pois Greta Thunberg e outros ecologistas vão aprender economia e deixar de protestar.

Deixaram há muito de se fazer ouvir os habitantes que havia nas aldeias pois ou estão no cemitério local ou num lar de idosos esperando o fim da vida. Também as crianças já não riem por não terem nascido. Nem quase os gatos miam nas casas abandonadas, passando fome quando os donos partem para as cidades e vilas próximas. Os cães esses esperam que os caçadores que restam os levem a caçar ou a passear. Os javalis proliferam e tornam-se uma praga que destrói as poucas sementeiras que ainda se fazem. As casas degradam-se e destelham-se uma a uma. Só cuidam delas os que gostam da solidão e do sossego das aldeias abandonadas do Interior, mas mesmo esses querem um pouco de convívio que só têm nas aldeias e vilas que ainda resistem.

E tudo isto aconteceu por uns “sábios” terem dito que tudo isto era normal e não havia nada a fazer para contrariar este nonsense.

1 Victor Ribeiro – A Terra Portuguesa, Lisboa, s/data, p. 116.

Pode ler a opinião de Aires Antunes Diniz na edição em papel desta segunda-feira, 10 de fevereiro, do Diário As Beiras

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