Opinião: Construir uma vida

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A Eutanásia é um tema doloroso, porque tem a ver com uma tomada de decisão sobre a nossa vida, quando essa vida já não é alegria, esperança, confiança no futuro e começa a aproximar-se do fim biológico. É algo em que gostaríamos de não pensar. Mas é necessário e devemos isso a nós próprios e aos outros.

Não tenho a menor dúvida que a vida deve ser considerada um valor essencial. A sua proteção, como valor absoluto, é uma conquista civilizacional – portanto, uma construção coletiva – que devemos preservar e reforçar, estando totalmente contra todas as formas de violência que a possam colocar em causa. É muito por isso que sou absolutamente contra a pena de morte, tenho muita dificuldade em aceitar o aborto (apesar de compreender que não deva ser considerado um crime) e me afligem todas as formas de violência contra a vida de qualquer ser humano. Mas é preciso ter muito bem claro o que é isso a que chamamos vida.

Do ponto de vista biológico, é um fenómeno natural que se pode descrever genericamente como um processo contínuo de reações químicas metabólicas que ocorrem sob controlo direto ou indireto de moléculas especiais que contêm as respetivas “instruções” (DNA – ácidos desoxirribonucleicos). A presença de DNA é uma condição necessária para a definição de vida, apesar de ainda ser objeto de discussão se é uma condição suficiente. Mas a vida é muito mais do que isso. Nos seres humanos, este trajeto entre o nascimento e a morte é um riquíssimo processo de aprendizagem, de experiências, de amores e desamores, de paixões arrebatadas, de ideias, de combates por ideais, de momentos de contemplação, de outros momentos em que geramos outras vidas, de partilha e de transmissão de experiências. A nossa evolução como seres humanos depende muito disso, da forma como construímos a nossa vida e a transferimos para as gerações seguintes. Nesse processo de construção, a nossa vida toma aspetos diferentes e individualiza cada um nós. Não há duas vidas iguais, somos todos diferentes, individuais, únicos e muito especiais.

Colocar fim a uma vida é algo que não podemos permitir, porque toda a nossa civilização depende das vidas que são construídas por seres biológicos que têm obrigação de a transmitir. Todos temos essa obrigação. Isaac Newton e Albert Einstein estão vivos, porque continuamos a aprender com eles e vivemos hoje tendo por base muitas das coisas que eles construíram e foram capazes de desenvolver. Fernando Pessoa está vivo, porque escreveu dos textos mais belos, com ideias e pensamentos desafiantes, que um ser humano foi capaz de escrever. Leonardo da Vinci está vivo, porque a sua ciência e a sua arte magnífica nos fascinam ainda hoje. Carl Sagan está vivo, porque a sua capacidade de acreditar na ciência, na explicação racional dos fenómenos naturais, nos ajuda, até hoje, a afastar demónios e a pensar com clareza. Adolf Hitler está vivo, porque a sua vida monstruosa nos continua a alertar para a nossa imperfeição como seres humanos, sendo capazes dos melhores e mais generosos sonhos, mas também dos piores e mais assustadores pesadelos.

Estão vivos todos aqueles cuja vida não se isolou e se transmitiu, seja qual for o impacto que teve nos outros. Mesmo os aparentemente mais insignificantes, e que passaram despercebidos para a maioria, tiveram para alguns uma importância muito significativa. Todos nós recordamos familiares, amigos, professores, namorados e namoradas, muitas pessoas que, numa determinada fase da nossa vida, nos influenciaram na construção que fomos fazendo.

Preservar a vida, esse valor absoluto de uma valia inimaginável é respeitar e recordar as vidas que nos permitiram chegar até aqui. Essas vidas tiveram suporte biológico para puderem ser construídas, mas não terminaram com o fim biológico dos seres humanos que as construíram, porque, no essencial, elas são um percurso, uma coleção de experiências e respostas à inquietude que nos caracteriza e que cada uma de nós interpreta de forma única.

Essas vidas foram sempre o resultado de uma construção complexa, individual, caracterizada por uma dignidade própria, um propósito e uma lógica que lhe deu sentido e continuidade. Dizer que se resumiram a um corpo que é só uma maravilha biológica, é muito redutor e muito desanimador. Na verdade, cada uma dessas vidas foi possível porque existiu, durante algum tempo, um corpo biológico, mas depois, foram muito mais do que isso e transmitiram-se às gerações seguintes. O caminho que todos temos vindo a prosseguir depende dessas vidas, é fruto do percurso dessas vidas.

Dizer, por convicções religiosas legítimas, por dogmas, por superioridade moral, qualquer outro tipo de construção humana ou por coisas em que uns acreditam e querem impor aos outros, que uma vida não é muito mais do que o corpo biológico que lhe deu suporte, é negar a essência de tudo aquilo que fomos capazes de construir, anular o percurso dos biliões de vidas que nos antecederam e resumir a nossa existência ao curtíssimo período em que o DNA mantém o nosso corpo biológico em funcionamento.

A Eutanásia só permite que cada vida, sabendo que está em sociedade e deve perceber a relação com os outros, se liberte da sua existência biológica e possa, na circunstância de cada um, seguir o caminho que é, no essencial, a experiência que ela própria quer transmitir. Esse caminho pode ser, nalguns casos, incompatível com a continuidade da existência biológica. Criminalizar essa tomada de decisão é inaceitável, porque isso interfere com a liberdade que é inerente à construção de uma vida. Justificar essa criminalização com crenças religiosas é inaceitável, porque isso significa que alguns acham que a sua vida e as suas crenças, se sobrepõem à vida dos outros. E isso, já aprendemos, é um retrocesso civilizacional.

Pode ler a opinião de Joaquim Norberto Pires na edição em papel de fim de semana, 15 e 16 de fevereiro, do Diário As Beiras

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