Opinião: A eutanásia à portuguesa

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Sou, por princípio, a favor da eutanásia. Mas também sou, por experiência própria, totalmente desconfiado de qualquer iniciativa legislativa que seja tomada pelo Parlamento ou pelo Governo português por melhor que pareça. Aliás, quanto melhor aparentar ser a lei mais eu desconfio, porque já sei o que a casa gasta.

Eu também era contra a privatização da CGD mas bastou-me ouvir José Sócrates argumentar com o interesse público da não privatização para me fazer mudar de ideias. Quando esta gente invoca o interesse público, eu puxo logo da espingarda e preparo-me para o pior.

Por isso, quando vejo agora, em plena crise do Serviço Nacional de Saúde, esta gente vir argumentar com o direito a decidir dos cidadãos, eu tenho de dar um salto na cadeira e puxar pela espingarda.

Da mesma forma que, para esta gente, o interesse público se resume ao interesse daqueles se se apropriam do dinheiro público, o direito a decidir também já se está mesmo a ver o que é: nada mais nada menos do que a fórmula expedita que os nossos políticos encontraram (essas cabecinhas pensadoras…) para resolver os problemas do Serviço Nacional de Saúde. Ou seja, todos aqueles que desesperam e sofrem horrores por não terem acesso a serviços de saúde de qualidade que lhes permitam tratar-se ou curar-se, em tempo útil, vão ter, a partir de agora, o direito a pôr fim ao sofrimento, sem filas de espera e sem dor, em qualquer unidade hospitalar ou em sua casa junto dos seus e de todos aqueles que estão ansiosos pela sua morte.

Tudo feito, obviamente, no superior interesse público e no superior interesse do cidadão. Por um lado, o cidadão deixa de sofrer e, por outro, o Estado reduz as filas de espera nos hospitais, poupando dinheiro aos contribuintes remanescentes. É o que se chama matar dois coelhos com uma cajadada, se bem que, neste caso, seja só um coelho a levar a cajadada, mas é o que chega para encher a barriguinha a muita gente.

Pode ler a opinião de Santana-Maia Leaonardo na edição em papel desta segunda-feira, 17 de fevereiro, do Diário As Beiras

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