eutanásia – opinião: É um tema complexo

“Invejo tantas certezas” disse Álvaro Beleza estarrecido no Prós e Contras.
António Cabrita, meu pai, cirurgião, ficou eternamente infeliz com a operação da próstata e depois com o enfarte do miocárdio e suas sequelas. Lutou dez anos com estas infelicidades. O pai convocou-nos para a alegria que dedicou à quinta de Valença, para férias juntos, para natais vibrantes, para longas conversas que tivemos o privilégio de saborear. O pai fascinava. Sentiu-se diminuído, incapaz de manter os seus prazeres, reduzido na sua resistência e mobilidade, constrangido cada dia mais pelas sequelas e pelos efeitos secundários dos fármacos. Foi uma rampa escorregadia, apoiado sempre pela esposa, testemunha de muitas mortes tenebrosas. Um dia recusou a obstinação terapêutica, a obstinação dos exames – já levava três TACs em dez dias. Não quisemos deixar o pai entre pessoas que nunca o tinham visto, que lhe chamavam Sr. António, que nunca perceberiam a dimensão da riqueza culta que se apagava. Era 18 de Dezembro de 2001. Morreu entre nós, com a mão na mão dela, e as minhas ajudando-o.
– Oh filho, morrer não pode ser uma chatice.
A eutanásia é um tema complexo e que tem demasiadas convicções que se colocam contra a decisão individual. Artigos brilhantes foram escritos contra e a favor. Unidades de cuidados paliativos exemplares foram construídas e são em muitos casos lugares especiais onde podemos adormecer a dor, apagar sofrimento, mas obviamente são instituições de morrer. Morrer é a parte última da vida e, portanto, é vida também. Como médico já vi sofrimento brutal, já ouvi pedir a morte, já desejei acabar com a dor, fiquei atormentado com a obstinação terapêutica que tive com um Bacalhau que me sussurrou.
– Morrer não pode ser tão difícil – Dr! Lacrimejei, aprendi e arrependi-me.
A despenalização de ajudar na morte é uma das penitências que tenho em favor dela. Já sonhei que o fiz, já acreditei que o fiz bem. Choco-me com os encarniçados salvadores de gente em final de linha. Espanto-me com famílias que lutam por colocar os familiares em instituições onde os não vão ver. Morrem entre estranhos, legalmente acompanhados, mas sem o abraço do sangue. Este é um tema de magnitude legal, filosófica, política e sobretudo de liberdade individual. Talvez o referendo fizesse sentido, mas pode não ser também. Infelizmente a política abaixo da cintura até aqui se alivia e conspurca.

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