eutanásia – opinião: Desistir ao Km37

Muito se tem falado da eutanásia. Genericamente tenho lido bons artigos. A minha dúvida começar a ser: ‘o que posso acrescentar ao que já foi escrito?’ Talvez apenas consiga dizer por outras palavras.
Claro que as leis são importantes. Claro que não podemos ser indiferentes ao que é aprovado e ao que é chumbado na Assembleia da República. Claro que há pessoas sábias e inteligentes entre o ‘a favor’ e o ‘contra’. Há bons argumentos que alimentam diferentes perspetivas.
Quantas vezes não quisemos desistir? Quantas vezes não dissemos – não aguento mais? Quantos pais, quantos maridos, quantas esposas…? Quanto atletas?
Dizem que na maratona há um momento em que se tem muita vontade de desistir. Não sei porque nunca percorri os 42,195km da maratona. Mas um atleta contou-me que há um momento em que se tem vontade de desistir, há um momento em que se diz: ‘já não tenho forças para mais’. No caso dele, disse-me que era no Km 37.
Na vida há muitos momentos assim, sobretudo quando se está muito doente, quando se tem muitas dores, quando não se tem ninguém a quem dar a mão. A solidão, a sensação de inutilidade, o peso que se sente ser, o não querer incomodar… reforçam a vontade de desistir.
Mas há pessoas que estão no Km 37 a dizer, levanta-te, continua, não desistas, ainda não chegaste à meta… eu estou aqui ao teu lado, a sociedade não desiste de ti.
Não estaremos a desistir no Km 37? Será que faz sentido ter o estado no Km 37 a dizer ‘se quiseres desistir conta connosco?’ Ou o estado a dizer ‘tu és inútil mais vale desistir?’ Ou o estado a dizer ‘tu não tens capacidade para aguentar o sofrimento – vamos acabar contigo?’
Não faria mais sentido que os meus impostos fossem para investir nos Cuidados Paliativos, nos médicos que cuidam, nos enfermeiros que não desistem das pessoas, nos cuidadores informais que se dão totalmente? Não faria mais sentido cuidar mais dos que cuidam?… Em algumas matérias fará sentido ser ‘objetor de consciência fiscal’?
Mas, se o próprio quiser desistir? Terá direito a impor a outros que acabem com ele? Eu posso impor a minha liberdade aos outros? O mesmo estado multa-me (e bem) quando ando sem cinto no carro ou sem capacete de mota! Será que a liberdade pessoal pode justificar tudo?
Na eutanásia desiste-se da pessoa (no Km 37 ) porque não aguenta o sofrimento. Talvez fosse mais importante perceber o que aconteceria se estivemos lá a dar força, a apoiar, a dar uma mão…
Também na vida, tal como no desporto, os que pertencem às equipas mais fracas, os que têm menos apoios, os que têm menos recursos, os que têm menos patrocínios… têm muita dificuldade em chegar à meta.
Também aqui a história será contada pelo lado dos ricos, dos ‘apoiados’, dos que pertencem às grandes equipas… terão sempre o apoio que precisam, os cuidados que necessitam e as ‘cunhas’ que fazem tanta diferença nos nossos hospitais.
Quero agradecer a todos os que continuam no Km 37 a dizer ‘tu és importante para nós’, ‘usaremos todos medicamentos para aliviar a tua dor’, queremos ‘matar o sofrimento não a ti’, ‘não vamos desistir de ti’, apesar de tudo o que possas sentir, queremos acompanhar-te até à meta.
Só até à meta porque não concordamos com o excesso terapêutico [distanásia]. Confia em nós, quando chegares à tua meta [ortotanásia], desligaremos as máquinas e daremos graças pelo privilégio que foi caminhar ao teu lado.
Tal como muitos atletas conseguiste chegar ao fim… façamos silêncio.

One Comment

  1. Apesar de todo o incentivo que se possa dar, cada um é que sabe o quanto lhe está custar fazer os últimos 5 km. Nenhum de nós, perfeitamente saudável ou, pelo menos, perto, pode dizer a outro "tu não te podes matar porque eu não quero". Por muito que nós não acreditemos que essa seja a solução, devemos deixar os outros ter a possibilidade de acreditar na sua solução.

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