“Sou negra. Sou mulher”

“Cada um tem a sua fonte de aprendizagem e a minha radica num quotidiano de 64 anos, transportando duas qualidades que são intrínseca e irrevogavelmente minhas: sou negra. Sou mulher.”
Francisca Van Dunem despiu as vestes de ministra da Justiça e falou de si, num discurso aplaudido de pé pela assistência, ontem, na Conferência 2020 Interseccional “Encarceramento e Sociedade”, em Coimbra.
Nascida em Angola, oriunda de uma família “orgulhosamente africana e negra”, a governante lembrou as memórias mais antigas (dos seus quatro a cinco anos),quando os negros moravam maioritariamente em musseques.
“Tinham sido empobrecidos por leis que os privaram da propriedade da terra; esmagados pelas proibições de atividades e pela concorrência desenvolta dos chegados das metrópoles. Eram pobres. E quando moravam no asfalto não habitavam propriamente os bairros elegantes da cidade. Foi assim que eu vivi. Sempre”, recordou.
Porém, apesar de nunca ter morado em nenhum dos bairros elegantes da cidade, havia algo que a incomodava: sempre que os operários negros passavam, vindos das obras, a caminho das suas casas e se cruzavam com a menina, agora ministra, no jardim da casa dos pais, perguntavam em jeito de piropo: “Trabalhas aí?” ou “Então, ainda não saíste?”. Pensavam tratar-se de uma empregada.
“Apoderava-se de mim uma enorme exasperação pela compreensão de que na mente daqueles homens lhes (nos) estava vedado o direito a uma vida digna”, confessou.
Os tempos são outros e o mundo mudou: caminhou-se para a abolição total da escravatura; deu-se a erosão dos impérios coloniais; surgiram instrumentos de valor universal proclamando a igual dignidade de todos os seres humanos. Mas, para Francisca Van Dumem, “o mundo continua desigual e as desigualdades afetam mais os condenados da terra”.
Segundo a ministra, a discriminação não é produto da mera ação de indivíduos isolados. “Institui-se como um sistema que se alimenta e institucionaliza através da perpetuação de estereótipos que depreciam, diminuem e aviltam a humanidade de determinados grupos”. Por isso, a existência desse sistema de crenças, que se constrói na primeira infância deve ser “claramente assumida e politicamente enfrentada”, defendeu.
Até porque – advertiu – “a questão do convívio interracial e interétnico em Portugal assume hoje uma dimensão crítica. Já não chega proclamar a inexistência de problemas raciais quando eles tendem para a radicalização”.
Para Francisca Van Dumem, os dossiês que têm vindo a público não são casos que possam ser “encerrados na sua dimensão judicial”.
“Ignorar os distintos eixos de desigualdade e as suas variadas interseções é um erro cujo preço estamos a pagar já hoje, e pagaremos ainda mais caro no futuro”, afirmou.
É, por isso, fundamental identificar políticas justas e inclusivas, que tenham em consideração a heterogeneidade dos grupos afetados pelas diferentes formas de discriminação. “Essa é a grande reparação que devemos exigir da história”, declarou a ministra.

17 Comments

  1. My name is no name says:

    E é justamente pela radicalização crescente que se tem observado, que Joacine Moreira está muito bem onde está. O que é preciso é que não se confunda e compreenda que, não se entendendo ainda os cidadãos que o são do Mundo, são pelo menos do espaço geográfico que habitam. Já a sua ancestralidade, tem a ver com tempo. O que é muito mais complicado…

    • Perguntem também à Sra Ministra qual era o tamanho do jardim e da casa dos pais em Angola! Concerteza que não era como nos musseques… Ela que se recorde que a família Van Dunnen em Angola, era das indígenas mais ricas e bem conhecida pelo seu envolvimento com as classes predominantes da época colonial!!! É fácil falar de cima para quem sempre teve uma vida fácil!!!

  2. Maravilhosa, essa mulher!!!

  3. João Borges says:

    Só é pena que o nome (apelido) esteja mal grafado: DuNem e não DuMem.

  4. Nanoock José Nocas says:

    Como Mulher, como NEGRA, merece toda a minha consideração. Mas já não tanto como politica e sob o domínio do socialismo, muito pior quando se arremessa à frente com o racismo…

  5. PAULO MENDONÇA says:

    ESTA SENHORA É ORIUNDA, SIM DE ANGOLA; LUANDA E DAS FAMÍLIAS, MAIS RICAS e PODEROSAS, JÁ DO TEMPO COLONIAL!
    OS VAN DUNEM, SEMPRE TIVERAM PRIVILÉGIOS EM TODO LADO. O QUE ELA DIZ NÃO FAZ SENTIDO NENHUM!

  6. Americo Lourenço says:

    Uma ministra racista

  7. Luis Fernandes says:

    Se não fôssemos nós Portugueses a Colonizar teria sido outra nação qualquer. Era assim nessa época da História Universal. Quando do acordo de Lusaka, algums Portugueses TRAIDORES entregaram as colônias abandonando 500 mil Portugueses a gente odiosa com se vê, imaginem o que se passou, assassinatos,violações de crianças e de famílias Inteiras.

    Quando o último Português saiu e apagou as luzes dos aeroportos,os tais partidos de libertação (expansões do terrorismo soviética em África) começaram uma guerra entre eles que durou desde 1974 e ainda continua.

    O povo Africano sofreu ,de Países mais ricos passaram a se dos mais pobres ,corruptos e miseráveis.

    Essas deputada e a ministra não seriam mais úteis nos países de origem? Considerando que odeiam Portugal e os Portugueses, que só lhes deram amor e respeito .

    Por favor explique aos portugueses , como deve intervir a POLÍCIA quando crimes cometidos por negros, que estão aqui a favor dos Portugueses.

  8. Luzete bandeira says:

    Alguns comentàrios , parecem desconhecer toda a història da famìlia da Ministra da Justiça , Francisca Van Dunnem .Por terem lutado contra a polìtica seguida em Angola, familiares muito pròximos da mesma, foram assassinados .Deixaram um filho que foi criado suponho que em Portugal pela Sra Ministra .

  9. Vicente da Fonseca says:

    Chica Van Dunem familiar directa dos fundadores do MPLA RESPONSAVEIS pelos MASSACRES dos portugueses e angolanos em 1960. Mataram, esquartejaram, estupraram e penduraram em estacas partes de centenas de corpos portugueses e angolanos, espalhando o terror por toda a parte. Os porrtugueses nao esquecem e passarao esta selvagaria de pais para filhos. Nunca esquecemos o passado. Chica uma mulher que se diz negra e abomina a carapinha com que nasceu.

    • Soror Silencio says:

      Pois não. Não esquecemos. Por exemplo, lembro-me que a tua esposa nasceu com o cabelo castanho, e há 20 anos que a vejo loura. E tu, ficaste careca depois dos 50, e depois foste fazer implantes. A tua esposa abomina os cabelos castanhos e gasta uma pipa de massa nos cabeleireiros. E tu, abominas os carecas, e foste deixar o teu pilim no Serviço de Dermatologia dos Hospitais Privados.

      • Mateus Filipe says:

        Com todo o respeito que tenho pela mulher, pela cor e pela sua carreira, penso que perdeu uma boa oportunidade de estar calada.

  10. Manuel Pereira says:

    Digo-o com muito orgulho, agora que se discutem os limites da hierarquia no Ministério Público: tive a sorte de servir o Ministério Público sob a sua hierarquia.

  11. Jose S Gomes says:

    QUERIDA SENHORA CIDADÃ DESTE PLANETA, TÃO DIGNA QUANTO EU E QUALQUER SER HUMANO…
    – PRECISAMOS ENTENDER QUE AINDA EXISTE ESCRAVATURA.
    SIM. – EXISTE ESCRAVATURA MAIS DURA DO QUE MUITOS IMAGINAM.
    SOMOS DOMINADOS POR UM SISTEMA CRIMINOSO «PINTADO COR DE ROSA».

  12. Fátima Nunes says:

    Apesar de viver na era colonial, o jardim de sua casa era cuidado, o tamanho de sua casa era de quem – já naquela altura – era remunerado de acordo com o seu rendimento, a sua educação era cuidada. Felicito por isso esta e outras famílias negras que apesar do regime de segregação, souberam demonstrar o seu valor e elevar a qualidade das suas vidas. A assimilação pode ser encarada como uma forma de independência.

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