Opinião – Porquê Manuel Machado? Porque sim?

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Coimbra está parada, não tem dinamismo económico, iniciativa, amor-próprio ou algum tipo de estratégia para o futuro. Quando li o orçamento proposto pela atual maioria, bem como as grandes opções do plano (GOP), fiquei verdadeiramente chocado com o texto, com o afastamento da realidade que evidencia e com a total ausência de propósito e de visão a médio e longo-prazo. Quem gere os destinos de Coimbra vive numa realidade paralela, apresenta a cidade como um exemplo de desenvolvimento económico e, à falta de problemas para resolver (imagine-se), fala até em resolver problemas nacionais como a “regionalização”, etc. É certo que os políticos, de todas as cores políticas, vivem para as eleições e gerem os orçamentos de que dispõem em função dos calendários eleitorais e não de objetivos definidos para a sua cidade e respetiva população.

No entanto, é chocante ver isso plasmado num documento público, sem verificar a devida censura por parte de quem tem de fazer oposição, mas acima de tudo, sem assistir ao escrutínio da população e comunicação-social. Por exemplo, num dos quadros das GOP ficava claro que no próximo orçamento a verba dedicada a “Desenvolvimento Económico e Apoio à Atividade Empresarial” passava de 1.88 milhões de euros para 354 mil euros, ou seja, sofria uma redução de 1.53 milhões de euros (-81,2% relativamente a 2019 ). Um outro exemplo é o desaparecimento da verba de reequilíbrio financeiro do iParque: o valor de mais de 785 mil euros inscrito em 2019 passou agora para 10 euros. Estamos a falar de uma empresa que continua a apresentar contas deficitárias, que anunciou recentemente, apesar da total ausência de atividade (a última notícia do seu confrangedor site é de 2016 – não devia o iParque apostar em comunicação?), que iria saldar a dívida ao ex-BES (por 2.8 milhões, a pagar a um fundo que comprou a preço de saldo os ativos deste banco que tem sido um sorvedouro de dinheiros públicos) e iria ainda pedir mais 1 milhão de euros de empréstimo bancário.

A oposição, mais ou menos em bloco, reprovou os dois documentos (orçamento e GOP) na passada sessão da Assembleia-Municipal. Manuel Machado comentou de imediato que “quiserem parar Coimbra e conseguiram”. Não, o chumbo do Orçamento e das GOP 2020 é o reconhecimento de que a cidade está sem rumo, totalmente à deriva e perdida de propósito a médio e longo-prazo. Ninguém “meteu o pau na roda”, como ainda argumentou Manuel Machado, porque não existe nenhuma roda. Ninguém pode parar o que não está em movimento.

O que é necessário é que este período seja usado para desenhar uma estratégia de futuro, mas isso só é possível sem espelhos e olhando para a verdadeira situação da cidade: social, económica e política. Ou seja, não vai haver roda de desenvolvimento e progresso sem uma nova forma de fazer política e serviço-público.

No entanto, Manuel Machado argumentou ainda que “a oposição reprovou o orçamento e as GOP porque sim”. Confesso que esperava fortes réplicas da oposição, com discurso político e justificações convincentes, onde se manifestasse uma alternativa de médio e longo-prazo. Infelizmente não vi, li ou ouvi nada que se aproximasse (apesar de apressadas conferências de imprensa, muitas acusações e casos demonstrados de autismo por parte do poder), o que parece dar razão a Manuel Machado. Nem ficou nenhuma esperança de que com a oposição as coisas seriam significativamente diferentes. A esperança é essencial em política, mas isso significa um discurso e uma ação que a justifique e motive.

É absolutamente essencial que a oposição justifique, detalhadamente e com alternativas, por que razão reprovou o orçamento daqueles que foram democraticamente eleitos para Governar o concelho de Coimbra e qual é a alternativa. Fica a sensação de trica política, de impreparação e luta, pura e simples, pelo poder. Coimbra já não aguenta mais isso, está muito perto do ponto de não-retorno.

Muito mais do que gritos, palavras fortes e muito ruído inconsequente, é importante que se saiba o que seria diferente, como, com que meios, com que pessoas e qual é o compromisso.

Mudar não tem nada a ver com cores, nem se pode resumir a alternância. Alternância por alternância não significa nada, é só uma manifestação de desalento e incapacidade de fazer melhor.

MUDAR Coimbra é afirmar um novo compromisso, que mobilize a cidade, pelas ideias, pela ação proposta, pela ambição, pelas metas e pelo horizonte coletivo. MUDAR Coimbra só é possível se uma esmagadora maioria dos cidadãos se identificar com esse compromisso e ação proposta. As coisas morrem quando nada mobiliza os cidadãos.

Não pode ser “… porque sim”. Perdemos todos, porque (as)sim nada será, na verdade, diferente. Mudam as cores das peças de um jogo viciado em que o xeque-mate está já bem visível e parece inevitável.

 

Joaquim Norberto Pires escreve ao sábado, semanalmente

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