Opinião: São Francisco de portas abertas

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No dia em que o palco se iluminou e as cadeiras do auditório se encheram de gente, o Convento de São Francisco passou a fazer parte do “bairro” de lugares da Cultura desta Cidade. Claro que o Convento é muito mais do que o seu (belíssimo) auditório – complexo de muitos espaços capazes de muitos acolhimentos.

Essencial como ferramenta cultural de Coimbra e da sua região, seria um desperdício destinar São Francisco ao mero acolhimento comercial de espetáculos, ainda que aquele espaço permita os usos mais diversos: os da rentabilidade comercial e os do investimento cultural. Sabendo-se que Espetáculo e Cultura não são necessariamente sinónimos, sabe-se também que a São Francisco ficam bem os bons encontros, que são os que possibilitam a descoberta ou, dito de outro modo, o espanto e o maravilhamento, que podem acontecer nas salas iluminadas.

Quando se começou a falar do que ali iria morar – tantas ideias houve já, umas concretizadas e outras nem por isso – muitas foram as propostas, mas o princípio orientador permanece indefinido. E agora que está em cima da mesa a candidatura de Coimbra a Capital Europeia da Cultura de 2027, acrescenta-se mais uma razão à necessidade de definir o rumo daquela casa a que muitos, pelas alegrias e interrogações que ali foram buscar, já gostam de chamar sua.

Por isso é que ao Convento de São Francisco deveria calhar, num futuro próximo, uma decisão de rumo que não prescindisse dos consensos que são o argumento dos palcos municipais, abrindo portas por onde passem criadores profissionais e amadores “da terra”, mas também “de fora daqui” (como de resto vai acontecendo por essa Cidade fora).

São Francisco é já hoje um sítio de celebração da nossa Cidade, embora sofredor dos constrangimentos que são os impostos ao funcionamento das autarquias locais, reféns de amarras burocráticas em nome de um rigor paralisante que não é rigor nem é nada. Mas “libertar” o Convento não pode significar prescindir da sua vocação democrática: no envolvimento da comunidade, no acesso à programação (desde o preço dos bilhetes à qualidade da oferta), na estimulação da criatividade.

De novo se vai colocar a questão do modelo de gestão do Convento nas suas diversas valências. E é bom que se coloque. E de novo se colocará a questão de munir daquele complexo das equipas que operem bem os equipamentos e saibam bem acolher quem ali irá trabalhar (artistas, visitantes, público). E outra vez se falará de como irá o Município articular – nos planos cultural e financeiro – o Convento com os demais lugares de cultura da Cidade.

Num país cujo traço essencial da política cultural é um sistema de concurso que replica as soluções de António Ferro (desde as Marchas Populares à Aldeia Mais Portuguesa), sujeitando décadas de trabalho ao julgamento de uns quantos “entendidos”, já se viu que o sistema de análise curricular não é o mais recomendável. Não pode ser responsabilidade exclusiva de gestores e programadores culturais a definição de gostos e desgostos, aceitações e recusas, entendimentos do que deve e não deve ser, do que deve e não deve existir.

Experimente-se, pois, um outro modelo de gestão cultural, que não abdique da política num domínio tão eminentemente político – o da Cultura. Porque o palco e o expositor são essenciais lugares de produção de História – no confronto das convicções, na discussão dos gostos, no debate das opções, na proposta, no risco.

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