Opinião: Plataforma PAJE – Apoio a Jovens (Ex)Acolhidos

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Todos aqueles que, como eu, puderam crescer no ambiente de uma família – que aí puderam aprender valores e princípios de respeito e de amor pelos outros e por si próprios – não podem ignorar a vantagem com que partiram para a idade adulta. A família, indistintamente de sua tipologia, é o pilar que sustenta o nosso desenvolvimento emocional e social. Modela-nos enquanto crianças e dá-nos instrumentos para enfrentar a vida de adulto em sociedade.

Significa isto que uma sociedade socialmente justa tem o dever de assumir como seu o compromisso de zelar pelo acolhimento e integração das crianças e jovens abandonadas ou retiradas aos pais. Vítimas precoces, sem amparo e sem refúgio, serão, caso a sociedade delas não cuide, adultos segregados para quem um passado de solidão será presente e futuro.

Em Portugal o compromisso, para com as mais de dez mil crianças e jovens nesta situação, é assegurado por 500 respostas de acolhimento. Conhecemos as carências humanas e financeiras com que muitas casas infelizmente lutam e sabemos que o acolhimento familiar é residual ( 3% do total). Importa realçar que o distrito de Coimbra, com vinte casas de acolhimento, é o que mais acolhe crianças e jovens vindas de outros distritos. São muitas e serão sempre insuficientes as iniciativas que contam neste compromisso.

Quero dar voz à Plataforma PAJE – Apoio a Jovens (Ex)acolhidos. Trata-se de uma instituição, única a nível nacional, com sede em Coimbra, com embrião na Faculdade de Psicologia da Universidade de Coimbra e que surge após um trabalho de muitos anos com crianças e jovens em casas de acolhimento.

Da consciência que, após o acolhimento, estes jovens não têm apoio de retaguarda na transição e, muitas vezes, não têm as competências necessárias para uma vida em autonomia, nasce a PAJE em 2016, pela mão do Professor João Pedro Gaspar. Hoje a Plataforma além dos projetos que desenvolve nas casas de acolhimento em todo o país (formação para cuidadores; intervenção com jovens; etc), apoia diretamente 165 jovens ex-acolhidos.

Fá-lo no combate à solidão, no aconselhamento, na preparação de entrevistas de emprego mas também na compra de medicação, alojamento ou alimentação… Sobretudo orgulha-se da superação diária de todos eles no sentido de estarem aptos para permanecer na vida ativa.

Apoios? Os dos seus associados (cerca de 120 ) com uma quota de 1€/mês; os parceiros que recorrem à Plataforma e os empregadores a quem a PAJE recorre; a União de Freguesias de S. Martinho do Bispo e Ribeira de Frades que assume as despesas de funcionamento das instalações … mas eu diria que um dos apoios mais importantes é o testemunho das pequenas grandes vitórias alcançadas.

Recordo o meu primeiro contacto, enquanto deputada, com a PAJE e o I Encontro Nacional de jovens (ex)acolhidos, em 2018. Perante 350 jovens, de 12 distritos e mais de 30 Casas de Acolhimento os testemunhos esperançosos de colegas ex-acolhidos falaram mais alto. Ali, ouvir a voz de alguém que foi sem-abrigo e já não é, ou que passou pela prisão, ou que engravidou sem contar foi tão importante como ouvir a voz do Eder, o herói que marcou o golo da vitória em 2016, ou ouvir a voz do Luís Aleluia, o “menino Tonecas” dizer: “trabalho, dedicação, resiliência e humildade – os quatro valores que geram sucesso, que tive a sorte de aprender na família da “Casa do Gaiato”.

Miguel Torga dizia que “O destino destina … mas o resto é comigo” . Que seja connosco fazer de Coimbra uma cidade de acolhimento e de integração. E se no próximo dia 17 virem dez jovens acolhidos, vindos de outras paragens, a conhecer a cidade, não estranhem, estão «A “PAJEar” por Coimbra», graças à generosidade de algumas entidades da cidade.

(para partilha de informações ou comentários pf escreva para: iniciativasquecontam@gmail.com)

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