Opinião: A propósito dos dez de Praga em 1989 (Ontem na “linha da frente”)

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Em 1989 por sorte e por impulso, fomos testemunhas da epifania da URSS.

Começou a queda do muro de Berlim, seguiu-se-lhe a independência das repúblicas e desse modo desintegrou-se o jugo dos Sovietes. Os países europeus que pertenciam à cortina de ferro quiseram abraçar o projecto maior que era a União Europeia.
Voámos como jovens profissionais e com os estudantes da AAC (símbolo importante neste contexto), carregados de esperança na vida que se nos abria, lutando com uma geração que antes de nós cavalgara a revolução de Abril dominando as instituições.

Fizemos as nossas associações e o nosso fórum de profissionais liberais porque queríamos futuro, queríamos ser parte das mudanças, das decisões. Fomos com Rosas apoiar as novas gerações que se revoltavam a leste e caiu-nos a preceito o veludo de Praga. Dezembro de 1989, tínhamos entre 28 e 33 anos e éramos iniciados numa adultez frenética.

Feitios divergentes, escolhas políticas diferentes, escolas de pensamento desiguais, lógicas diferentes na vontade de intervir. Tínhamos todos em comum a ambição e o sonho de mudar o mundo, a capacidade de edificar instituições, de marcar estratégias. Isto tornou o grupo heterogéneo numa equipa com divergências menores perante a diversidade.

Estivemos desta forma em Praga em 1989. Sem telemóvel, sem internet, sem moeda única, sem Europa e defendemos, em consenso, uma Europa de Lisboa a Moscovo. Depois do happening, a Europa cresceu, agigantou-se, abriu fronteiras, solidificou o projecto na existência de apoios financeiros e enterrou-se em alguns lados no despesismo desbragado e na falta de estratégia e no deslumbramento de alguns políticos impreparados que nasciam de lógicas de poder sem adequada regulação que culminou na crise de 2008.

Vivemos os 30 anos mais fascinantes da Europa enquanto ela não percebia que a classe média da China, da Índia, da Rússia, do Brasil se multiplicava e desse modo, o mundo financeiro estava a mudar de lugar. Os anos oitenta e noventa são uma benesse que temos de levar como um tempo maravilhoso das nossas vidas. Assim, tivemos frigoríficos, televisões, microondas, computadores, carros cheios de tecnologia, uma vida sem dificuldades que entregámos aos filhos sem lhes emprestar incertezas e dúvidas.

As mudanças demográficas começaram a condicionar a Europa. Taxa de nascimentos baixa. Envelhecimento, o nosso – os dez e connosco a Europa onde o “tsunami grisalho” desestabilizou a segurança social, o sistema de saúde. Claro que, pelos sessenta anos, temos a consciência de que é ótimo estar bem e poder ter planos para os oitenta. Levamos avanço de trinta anos sobre os outros centros em envelhecimento e devemos ter estratégias exemplares de reduzir a morte arrastada, em prol de uma longa vida saudável.

A demografia explodiu na Nigéria e na Índia e no Brasil e nós reduzimos a força pagante da segurança social. Vimos como a internet alterou o relacionamento, como a ampliação das mentiras se propagou nas redes sociais. Vimos a multiplicação de certificações, de normas e de leis que espartilharam a economia da Europa contra a libertinagem de outros num mundo global.

De todo esse processo somos testemunhas de como a esquerda e direita se tornam difíceis de perspetivar nos dias de hoje, quando precisamente as saudáveis diferenças ideológicas são cada vez mais importantes para salvar a democracia. Somos testemunhas de trinta anos de aceleração da história e não da sua morte.

Testemunhamos agora as convulsões sociais que abalam as sociedades dos cinco continentes sem haver uma lógica gloriosa que as una. Hong-Kong contra o jugo militar da China. Maduro versus Guaidó na Venezuela. Inquietação na Bolívia e na Líbia. Há movimentos de rua que rompem em Barcelona, no Irão, no Chile, no Brasil, com cariz mais ideológico. A própria esquerda viciou-se em chavões e em construção de falsidades que propaga sem vergonha nas redes sociais.

É a submissão a um novo paradigma da tecnociência que obriga uns a percorrer milhares de quilómetros em busca de conforto e outros a refazer fronteiras e a edificar muros. Somos testemunhas dos migrantes e da barbaridade do seu percurso desde a origem até ao destino. Somos testemunhas de uma crise da finança que atentou contra os sonhos de milhões de crentes na banca e em certezas sobre depósitos.

Somos testemunhas de uma alteração climática que de causa mais ou menos humana é um problema da humanidade de certeza. Somos todos distantes de títeres e déspotas, de Orban, de Trump, de Putin, de Maduro, de Duterte e preocupamo-nos com o contagioso que são. É magnífico sermos assim iguais no essencial e divergentes no caminho.

Somos testemunhas da pobreza galopante (da excessiva dicotomia de ricos e pobres), da ignorância (novos iliteracismos construídos por projetos de oferecer saberes sem exigência na sua aquisição) dos discursos que constroem necessidades para criar negócios que beneficiam quase sempre os mesmos.

Por tudo isto somos dez almas que viveram os últimos trinta anos de modo aberto, construindo algumas linhas de pensamento por trajecto muito díspare. Hoje, como há 30 anos, não renegamos as nossas diferenças ideológicas nem a as opções distintas na acção política mas, também hoje como há 30 anos, afirmamos que queremos a liberdade na sua dimensão sublime: de expressão, sem amarras, sem pressões, ou condicionamentos.

Queremos oportunidade para a construção de riqueza que conduza cada um, na sua individualidade, e a sociedade como projecto colectivo, a um nível superior de bem-estar material conjugado com a realização dos valores maiores da igualdade e da solidariedade.

Liberdade, ainda que não se espartilhe nesta ou naquela fronteira que limitando geograficamente um território serve de pretexto a nacionalismos que condicionam a construção da Europa Comum em que acreditamos e que queremos sem muros.

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