Opinião – A Educação Física do tempo de Ramalho Ortigão até aos dias de hoje

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“Todo o cidadão educado é aquele que sabe ler e nadar”. Platão, filósofo ateniense

A Ramalhal figura, membro da Academia das Ciências de Lisboa, em censura acerba aos políticos do seu tempo, dizia que “não eram homens de ciência, nem sequer homens do mundo, por não terem princípios nem ideias gerais”, justificando a sua opinião de forma corrosiva: “Pela sua cultura de espírito estão abaixo do mais corriqueiro leitor da ‘Revista dos Dois Mundos’ e do ‘Dicionário de Larousse’. Como cultura física, indigência igual à da cultura mental. Se falando metem os pés pelas mãos, calados metem os dedos pelo nariz. Não têm ‘toillete’, não têm maneiras, e têm caspa”.
Ramalho Ortigão foi a personagem do panorama literário português que mais e mais vigorosas páginas dedicou às práticas físicas da juventude. Como prova, este pequeno naco de prosa, indiciador de uma defesa estrénua em prol actividades corporais: “Em Portugal, país de magricelas, de derreados, de espinhelas caídas, nada mais importante do que a educação física… e a ginástica não é uma questão de circo nem de barraca de feira, é uma alta e grave questão de educação nacional”.
Corria o ano de 1871. Ramalho, em apelo quase patético, desiludido com a ausência de medidas dos políticos em favor de uma educação integral dos jovens (ele mesmo o diz, “não nos dirigimos aos políticos”), pede, ou exige mesmo, uma tomada de posição por parte dos pais em defesa da formação completa dos filhos.
Hodiernamente, a sociedade portuguesa está cada vez mais hipocinética. Segundo Alexander Berg, Professor de “Ciência Computacional”, da Universidade da Carolina do Norte, “a força muscular do homem e dos animais domésticos apenas produz 1% de toda a energia produzida e consumida na terra, quando, em meados do século XIX, era de 94%”.
Feito o diagnóstico há que procurar possíveis causas, de entre elas:
Os jogos tradicionais que povoaram e alegravam a infância de há décadas atrás – v.g., “a macaca”, “a cabra-cega”, “o pião” – estão votados ao abandono e ao esquecimento. As casas de habitação passaram a ser cubículos, sem espaços exteriores,, em que mal cabem as mobílias.
As ruas passaram a pistas de automóveis , os passeios estão pejados de carros arrumados dificultando a simples passagem de peões, impedindo, assim, os jogos de futebol, das crianças com bolas feitas de trapos ou de couro dos mais abastados.
“Et por cause”, o jovem que corre para apanhar o autocarro que o leva à escola num percurso de escassos metros resfolega, qual cavalo cansado, deitando os bofes pela boca fora.
A obesidade, verdadeira pandemia dos nossos dias, tomou conta de um número assustador de crianças e adolescentes, sendo o prenúncio de doenças cardiovasculares, de patologias da coluna, cifoses, lordoses, escolioses, das articulações que rangem ao peso das “banhas”, de diabetes nas idades jovem e adulta, etc., etc.
As muitas horas de tempos escolares, são passados sentadas em posições viciosas, viradas para os compêndios, ou para os quadros em que os professores escrevem as matérias, relegando para segundo plano a prática dos exercícios físicos em qualidade e “quantum satis”
A mocidade vive sob o peso de mochilas pejadas de livros, cadernos e o computador companheiro de todos os dias e todas as horas.
Algumas explicações começam no 1.º ciclo do ensino básico espraiando-se até à universidade!
Por último, a acrescentar a tudo isto, as poucas horas de lazer passadas em jogos de computador, a olhar para televisão ou até mesmo para as moscas. Pobres crianças, triste país!

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