Opinião: Os muros persistentes

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Na imaginária exposição universal dos “temas fraturantes” está encostado à parede um pedaço do Muro de Berlim, demolido cumprem-se agora 30 anos. Durante alguns dos anos da minha vida convivi de perto com o Muro de Berlim. Atravessei a fronteira, para cá e para lá, em Friedrichstrasse, olhei pela janela do U-Bahn (metro) as estações congeladas no tempo em que o traçado da linha não tinha leste nem oeste, tenho na memória a Potsdamer Platz, vazia e atravessada pelo Muro, herdeira da capitulação de Berlim depois de retirados os escombros. E conheci razoavelmente as duas cidades de Berlim, belíssimas as duas, cada qual com o seu modo de vida num tempo em que se supunha ser possível construir mundos paralelos.

A queda do objeto Muro de Berlim foi uma boa noticia para mim, que sou dos que não gostam de muros e não gostava daquele em particular, por razões de vivência pessoal e de convicção ideológica. Mas sabia, pelas mesmas razões, que a queda do Muro de Berlim não simbolizava, naqueles dias (que são os de agora), a queda de mais altos muros, quais são os da divisão entre os mundos da apropriação, por poucos, da riqueza produzida pelos milhões (que dessa riqueza percebem uma pequena parte, ou nenhuma). Em 30 anos de “vitória” do Ocidente sobre o Leste, o sistema capitalista não só não conseguiu pacificar a vida na Terra, como teve o condão de inventar mais e mais ferozes muros: uns feitos de betão outros de mar (ali onde, hoje mesmo, se matam semelhantes nossos); uns separando o acesso à educação, outros o acesso à saúde; alguns separando o condomínio fechado de um mundo de lugares em que se amontoam os que não têm direito à habitação; outros ainda que dividem os que se entopem em soluções gourmet daqueles que correm para sacos de cereal esventrados, atirados dos aviões da caridadezinha “ocidental”.

A queda do Muro de Berlim não significou, para os habitantes do “leste”, a entrada no “modo de vida europeu” segundo Ursula von der Leyen. Porque aquele “modo de vida” continha, em si mesmo, um conjunto de muros que eram os da própria sociedade alemã. Os relatos dos jornais destes dias – nem por isso “alinhados” com a extinta RDA – dão-nos conta de que o sentimento de esperança, que acompanhava a visão das placas de betão derrubadas, depressa se desfez. Não farei aqui a defesa primária das virtudes da RDA, misturando modelo de governação e vida em sociedade, como tanto se faz na propaganda das virtudes “ocidentais”. Mas direi que uma sociedade que se preocupa em salvaguardar direitos laborais e promover o acesso à educação, à saúde, à habitação e à cultura, está mais capaz de derrubar muros do que aquela que procura, no seu afã pela proteção do lucro financeiro, aliviar tensões à custa da promoção do fascismo, da xenofobia, do preconceito, do ódio entre semelhantes.

O noticiário dá conta de inquietação nos lugares todos do planeta. Em 30 anos, por um muro derrubado, muitos mais foram erguidos. A má notícia é a de que o tempo dos muros demora a ser ultrapassado. A boa notícia é a de que, indiferentes às comemorações vigiadas por snipers, naquela mesma Berlim e por todo este Planeta, há gente que sai à rua para lutar pelo derrube dos muros.

Pode ler o texto de opinião de Manuel Rocha na edição em papel deste fim de semana, 16 e 17 de novembro, do Diário As Beiras

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