Opinião: Não estamos a fazer bem…

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Ontem, numa sessão sobre “Empreendedorismo e inovação”, organizada pelo clube MBA da FEUC, moderei um painel de debate com empresários. Tinha lá vários empresários que criaram empresas que geram elevados volumes de vendas e são líderes nacionais e internacionais nas suas áreas de negócio. Um deles, Filipe de Botton (CEO da Logoplaste), líder de um grupo que tem 74 empresas e fatura quase 600 milhões de euros, insistiu muito na necessidade de ver a universidade a mudar rapidamente para ser fator competitivo para a economia e para as empresas. A determinada altura dizia: “Tenho a sensação de que o ensino não mudou nada nos últimos 50 anos, vocês ensinam exatamente da mesma maneira” e o mundo mudou radicalmente.

Esta afirmação, que gerou algum debate acalorado, tem tanto de verdadeiro como de injusto. Antes do debate, na sessão de abertura, uma vereadora da Câmara de Coimbra apresentou a cidade de Coimbra como uma modelo em empreendedorismo e inovação. Nomeou salas de coworking no pátio da inquisição e edifícios de incubação no centro da cidade, chegando mesmo a falar de uma baixa a fervilhar de atividade e uma cidade pujante aberta à inovação, ao investimento e capaz de atrair atividade.

Não pretendo criticar ninguém, até porque isso não é construtivo e não adiciona nada ao que é necessário fazer. Prefiro alertar somente para a necessidade de tirar a cabeça da areia, fugir dos discursos só de palavras e subir a um lugar alto para ver a realidade.

A cidade de Coimbra não vai avançar sem se olhar ao espelho (eu sei que é uma decisão muito complicada) e identificar, com verdade, o que está a fazer mal. Outras cidades já o fizeram e desenharam planos estratégicos que as colocam em trajetórias de desenvolvimento muito interessantes. Coimbra resiste em fazê-lo e prefere discursos de faz-de-conta, apelando a um passado que, apesar de grandioso, é somente isso: passado.

Está em curso na Universidade de Coimbra (UC), sob a liderança do novo reitor Amilcar Falcão, uma mudança silenciosa na forma como a UC encara o seu papel na inovação, isto é, na capacidade de colocar conhecimento avançado ao serviço da sociedade, dando corpo, propósito, consequência a toda a atividade de criação de conhecimento. É uma mudança enorme de paradigma que precisa de ser bem compreendida, pois os complexos desafios colocados nesta viragem de século exigem soluções baseadas em conhecimento, que nos transportem para níveis de desenvolvimento humano mais condizentes com a nossa condição. Consequentemente, a Universidade de Coimbra investiu numa estrutura especializada de captação de investimento, desenvolvimento de parcerias e valorização de ativos internos, como forma de complementar os múltiplos esforços de outras entidades regionais, dando grande relevo à capacidade de afirmação da UC como motor de desenvolvimento da região e do país.

Com tudo isto pretendo dizer que é de uma profunda mudança de atitude que estamos a falar. Uma atitude inconformada, que questiona a todo o momento a razão das coisas, que procura parcerias, que não rejeita nenhuma valência, mas a tudo procura dar propósito, como forma de atingir objetivos estratégicos. Essa atitude precisa de ser assumida pelos vários atores locais, para que se tornem reais as intenções anunciadas nos vários discursos políticos.

Neste momento, não estamos a fazer bem, não somos atrativos e não somos os melhores do mundo. O Filipe de Botton tem razão quando diz que nos afastamos do mundo real, pois há uma distância muito significativa entre a produção de conhecimento e a capacidade de o transformar em inovação. E isso faz-se transmitindo de forma eficaz e adaptada (de acordo com o público a que nos dirigimos), procurando responder a desafios competitivos da sociedade (em todas as áreas de atividade), acelerando essas respostas para que possam ser efetivas num mundo em mudança vertiginosa, mas não esquecendo que a produção de conhecimento precisa de tempo, para ser sustentável, precisa de falhar vezes sem conta, para se aprenderem bem as razões das coisas, e precisa de ser demonstrada. E se essa demonstração exige presença nos mais prestigiados locais de divulgação de conhecimento (para o necessário confronto de argumentos), também exige que se perceba (e se seja consequente) que isso é só metade do caminho. Os restantes 50% é a inovação competitiva que só conhecimento de ponta é capaz de produzir. É nisto que Coimbra se pode diferenciar. Mas tem de querer e fazer por isso.

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