Opinião – Ciência? dos dados!

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O rigor científico, porque fundado no rigor matemático, é um rigor que quantifica e que, ao quantificar, desqualifica, um rigor que, ao objectivar os fenómenos, os objectualiza e os degrada, que, ao caracterizar os fenómenos, os caricaturiza. É, em suma e finalmente, uma forma de rigor que, ao afirmar a personalidade do cientista, destrói a personalidade da natureza”
Parto duma frase de Boaventura de Sousa Santos, em “Um discurso sobre as ciências”, para introduzir o tema da novíssima ciência dos dados. Será que estamos a viver o expoente máximo dum certo abstracionismo experimental – já autómato e automático – sem contributo humano? Será isto ciência? Natural ou Social? Ao colecionarmos dados – muitos dados (Big Data com os 5 Vs: Volume, Velocidade, Variedade, Veracidade e Valor) – resultará numa experiencia repetível em condições controladas como em outros domínios? Ou estamos apenas a observar com tecnologia?
No domínio da epistemologia e ontologia, poderemos falar de ciência? Ou apenas na aplicação de conhecimentos e técnicas de outras ciências? Por exclusão de partes, consideraríamos num extremo a Matemática como “a” Ciência dos dados ou então, no outro extremo, todas as ciências, pois julgo que todas terão dados.
A moda do imediato, da possibilidade de conhecermos instantaneamente o comportamento dum consumidor (sim dum consumidor porque os outros, os que não rendem, não interessam), é muito apelativa para as grandes empresas e para o financiamento, para quem tem capacidade de atuação em massa e rapidamente. Hoje, assistimos a quase todos os trabalhos e muitas disciplinas no ensino superior serem “aplicados”. Muitos estudos são datados com uma validade curtíssima e nenhuma generalização possível. É a espuma dos tempos, o que Gilles Lipovetsky chamou a “Era do vazio” e caracterizou como hiperconsumo e cronoconsumo. Recentemente Shoshana Zuboff em “The Age of Surveillance Capitalism” condena as empresas de tecnologia que querem controlar todos os aspectos do que fazemos, para obter lucro.
Diz, ainda, Boaventura de Sousa Santos, em 1985, que “a ciência pós-moderna procura reabilitar o senso comum por reconhecer nesta forma de conhecimento algumas virtualidades para enriquecer a nossa relação com o mundo.” Não parece que a as ciências tenham seguido esse caminho, veja-se o caso das crises financeiras tão bem ancoradas nas ciências e na tecnologia. O fim do império cognitivo é o umbral do império sensorial?
O conhecimento e a observação do comportamento dos indivíduos e da natureza, em todas as áreas, é importante para o desenvolvimento. Os dados daí resultantes devem ser analisados à luz dos princípios e métodos das ciências, com rigor, com regras e, sobretudo, com ética. Deles podemos, de facto, enriquecer a nossa relação com o mundo, como é o caso da sustentabilidade ambiental, dos direitos e da transparência. A afirmação de “ciência dos dados” requer ainda amadurecimento, certo das virtualidades, certo também dos abusos. Sem dúvida, a análise de dados entrou nas nossas vidas, condicionando politicas e economias. É urgente regular esta atividade.

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