Opinião: Austeridade

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É bom ser de provecta idade, 90 anos, pois ocorrem-nos ao pensamento acontecimentos de outros tempos que se adaptam ao que está a acontecer.

Começo pela mais recente, mas já lá vão cerca de 30 anos. Estava com um engenheiro a ajudar a apanhar azeitona e veio-me ao pensamento perguntar: “Vocês dariam 5% do que ganham para tirar o país do lamaçal em que se encontra ou para que caminha?”. Sem excepção: “Damos, mas não pode ser o Governo a governar o dinheiro”. Fiz essa pergunta a cidadãos comuns, professores universitários e até, muito posteriormente, a um Presidente da República. Todos davam. Creio que hoje ainda voltaria a ser assim. Espero que a recomendação “não pode ser o Governo a governar o dinheiro” ainda se mantenha.

Tem-se vendido o património soberano, as dívidas aumentam. Só sorrisos e enganar o povinho se mantém e acrescenta.

Teria aí 24 anos quando fui presidente da Comissão Central da Queima das Fitas. Também exerci os cargos de presidente do Conselho Fiscal da Associação Académica de Coimbra, presidente do Conselho da Faculdade e presidente da Assembleia Magna – tudo por eleição. Na Queima das Fitas do ano anterior, houve um sururu no dia do cortejo, na Portagem, em frente ao Banco de Portugal, porque um jovem, creio que já com os copos, se começou a meter com a GNR. Este, para se fazer respeitar, dá uma coronhada na cabeça a um estudante de Lisboa. Faz-lhe uma escalpelização da região temporal. Sangra. Levo-o à Farmácia Vilaça e depois, a pé, às urgências dos HUC, onde o deixei. Na Portagem, até houve tiros, mas amedrontaram, não feriram ninguém. Não sucedeu porque um comissário da polícia ia atrás do comandante de um pelotão (ou equivalente), um jovem tenente, que dizia: “Cheguem-lhes! Cheguem-lhes” e o comissário “Estejam quietos. Os rapazes têm razão”.

Assim, a Queima das Fitas foi encerrada por Ordem do Governo e do Senado. Não houve cortejo nem rendimento do parque ou do Chá Dançante. Ficaram as dívidas e havia que as pagar. Era uma questão de honra…

Donde, no ano seguinte, Queima das Fitas com austeridade. A Comissão Central foi falar com o reitor (que tinha sido meu professor de Anatomia). Quando nos recebe, começo: “Somos a Comissão Central da Queima das Fitas…”. De pronto pergunta-nos: “Mas quem vos disse que o Governo, o Senado e a Reitoria querem que se faça a Queima das Fitas?”. Levava um pequeno discurso feito, mas apenas disse: “A Queima das Fitas faz-se, nem que seja contra a vontade do Governo, do Senado e da Reitoria”. Já não lhe estendemos as mãos. Simultaneamente, curvados, levámos a ponta da capa ao ombro esquerdo (sinal da máxima cortesia) e despedimo-nos. Já íamos na porta dos archeiros quando, nisto, surge o reitor atrás de nós e nos diz: “Façam a Queima das Fitas. Eu estou convosco sejam quais forem as consequências! Dou-vos já 30 contos que sei que estão sem dinheiro”.

Qual foi a austeridade? Cada membro das comissões tinha três ou quatro livres-trânsitos e passou a ter só um. No baile, havia uma mesa para cada um dos membros. Passou a ser só uma para todos. Eles ficaram um pouco discordantes, mas dissemos que se mantivessem mais que uma chamávamos a polícia para os pôr fora.

Fizeram-se por escrito os acordos com os prestadores de serviços, da iluminação do parque, refeições, etc. Só não fizemos com o fotógrafo e foi apenas com ele que tivemos problemas. O peditório para a Casa de Infância do Professor Elysio de Moura foi suspenso porque, na Venda da Pasta, uma loja da Baixa deu apenas 2,5 escudos. Somos pobres e agradecidos, mas não somos miseráveis.

Isto é a introdução ao que eu esperava que acontecesse com este Governo que, qualifico, mais que Governo, é um desgoverno.
Este comportamento mereceu o louvor do Senado, por unanimidade, pela dignidade e compostura com que a Queima das Fitas decorrera.

Tivemos 150 contos de lucro. Saldámos o que ficara de dívida dos anos anteriores e fizemos ainda um donativo para os diabéticos.

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