Opinião: Tá quietinho ou levas no focinho

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Não suporto gente maniqueísta que vê o mundo a preto e branco, dividido entre bons e maus.

Não tolero gente pura, que se assevera sem pecadilhos, com ou sem bigode ridículo e cabelinho lambido.

E abrenuncio estes pequenos Hitlers que chegam de mansinho e se instalam despudoradamente, fazendo-nos reféns dos nossos preconceitos e medos, como o próprio fez há umas décadas atrás, aproveitando o descontentamento do povo alemão.

Ao contrário, gosto muito de todos os defensores da liberdade. Todos, sem excepção. Prefiro-os bem-apessoados, donos de uma boa criação e, já agora, mestres na arte do humor. Mas, se assim não fôr, se se apresentarem com as vestes rasgadas por um calão agressivo, donos de um par de ideias parvas ou de indisfarçável mau gosto, que seja. Toscos ou mal-amanhados, só me importa que protejam a liberdade.

E, por isso, em nome desta, tem-me apetecido promover a última música do Valete, a famosa B.F.F., que lançou o pânico no país.

A música tem os piores ‘rap beats’ de que me lembro e uma letra muito fraquinha. É péssima. Não a ouço, mas não admito que seja censurada por gente de dedo apontado a tudo aquilo de que não gosta. Há pouco tempo, assim era por cá, mas, por obra de uns quantos valentes que não se resignaram com as saudades da dita Liberdade, conquistámos o direito a falar livremente, mesmo com pouca educação e muito mau gosto.

E esse é o preço da Liberdade, excessivamente baixo, até, já que com ele pagamos o imenso abandono a que votamos alguns bairros, algumas etnias, alguns grupos, e muitas pessoas.

Gosto de gente bem temperada, mesmo que os excessos possam provocar algumas indigestões. Na minha vida, gosto, pois, de qualquer ‘Anti-Herói’ – que, por sinal, a par de ‘Revelação’, ‘Monogamia’ e ‘Roleta Russa’, é uma das melhores músicas do rapper da Damaia -, tanto quanto dispenso os verdadeiros vilões.

Já na arte, gosto de tudo o que dê sentido à história, de tudo o que me enleve e nela me faça acreditar: beijos e carícias, cartas de amor e bebés gorduchos, ou traições e fúrias, palavrões e assobios. Heróis ou vilões, tanto me faz.

E, por isso, não percebo a histeria de uns quantos moralistas-de-trazer-por-casa que se indignam com o Valete, com o Bernardo Silva (por ter comparado um amigo às famosas drageias de chocolate com amendoim), ou agora, mais recentemente, com o ‘Joker’ de Todd Phillips. O filme é excelente, mas já há quem queira ‘limpá-lo’ também.

O protagonista é um verdadeiro vilão e a receita nem sequer é nova (lembra até o famoso ‘motorista de táxi’ interpretado pelo De Niro), mas neste tempo paradoxalmente moralista não há espaço para tais liberdades.

O caos da fictícia cidade de Gotham, a violência, a falência dos serviços públicos, a falta de atenção aos vulneráveis (a um Arthur Fleck doente, que se ri sem querer e é por isso exposto e violentado), o cinismo generalizado, não parecem suficientes para os fazer apreciar uma obra que a todos faz pensar.  À Brigada dos Costumes só importa a devida explanação dos conflitos morais e, assim, já veio censurar o ‘Joker’ por alegadamente glorificar o mal… como se o mundo fosse a preto e branco e nós fôssemos uma cambada de mentecaptos, incapazes de discernir.

É o fim da herança de Maio de 68 com os paladins dos bons costumes a proibirem tudo aquilo de que não gostam a troco de versões ‘limpas’ de canções e filmes, próprias para os apatetados em que nos querem tornar.

(Já foi assim na Alemanha: uma ‘limpeza’)

Ainda ninguém propôs a condenação à morte a que foi condenado Salman Rushdie, mas, pelo andar da carruagem, estamos a caminho. Ao nosso Parlamento já chegou quem defenda tal severidade nos castigos.

Eu, à cautela, vou fazendo cópias de todos os filmes do Tarantino, do Padilha e do Meirelles, dos livros do Franzen, do St Aubyn e do Puzo, e de todas as músicas que falem de gente torpe e infame, antes que alguém acenda a fogueira.

E trauteio o “Tá Quietinho Ou Levas No Focinho” dos Trabalhadores do Comércio… só para chatear.

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