Opinião – Gente que não sabe estar

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Receio que António Costa esteja a ficar mole.
Ainda há pouco temera que a dureza da função tivesse endurecido o Primeiro-ministro ao ponto de me ter parecido um vulgar arruaceiro, mas entretanto desenganei-me.
Estou agora convicta de que a cena do Terreiro do Paço em vésperas de eleições terá sido, como ele próprio esclareceu na altura, uma encenação (do cidadão que, como se viu, tinha idade bastante para ter acumulado a suficiente manha para a todos enganar, ou dos jornalistas que, como se sabe também, são useiros e vezeiros em surpreender inopinadamente António Costa).
Registe-se que até me enternece a convicção de que o chefe do Governo estará a amolecer, afinal.
Assim será, julgo. E a prova disso é que, há poucos dias, não mostrou qualquer embaraço com o braço-de-ferro que o seu Ministro da Administração Interna lhe propôs, em pleno Facebook, à vista de todos.
Sucedeu que – como já se sabe – António Costa acabou com o problema dos familiares no Governo, isto é, o tal “problema inventado pela oposição” que até agora, na sua opinião, não era problema nenhum, mas que agora apresentou aos portugueses como “problema resolvido”. (Muito bem – entendo eu – apesar das óbvias contradições. Antes desdizer disparates do que teimar no desatino.)
Ora, para isso, teve que decidir quem ‘abandonava o relvado’, e, se o Ministro do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social lhe facilitou a escolha, pré-anunciando a sua intenção de ‘arrumar as chuteiras’, o Cabrita e a sua mulher, a Ministra do Mar que agora cessa funções, mantiveram-se firmes, a assobiar para o lado, como se não tivessem visto o treinador de pé a anunciar a iminente substituição e obrigaram o chefe a lançar mão do celebrérrimo critério da ‘moeda ao ar’. (Não pode ter sido outra a metodologia utilizada pois ninguém descortina outra razão para tão desastrada escolha.)
Mas os admiradores da Ministra não se conformaram com a decisão de Costa e encheram as redes sociais de clamores. O alvoroço não seria suficiente para despertar a atenção dos mais distraídos, não fosse o Cabrita ter partilhado tais queixas na sua própria página do Facebook. E – pasme-se – António Costa parece ter ignorado a desconsideração e lá irá ele, feliz e contente, tomar posse de braço dado com o seu Ministro.
Há quem julgue que este já tem a guia de marcha assinada, mas para mim é claro que o líder socialista estará a ser vítima do mais vulgar amolecimento, daquele que costuma amaciar modos e maneiras à medida que a ternura da velhice leva o fulgor da juventude, pois ainda me lembro das suas palavras quando João Soares, à época Ministro da Cultura, prometeu no Facebook “um par de salutares bofetadas” a dois conhecidos cronistas.
“Nem à mesa do café se podem esquecer que são do governo”, disse então António Costa.
Pois… parece que mudou de ideias entretanto. (Espero que a idade me brinde com igual bonomia. Dar-me-á jeito para suportar as birras dos netos que hão-de vir.)
Por este andar, ainda veremos o Primeiro-ministro a fazer ‘festinhas’ na cara aos cidadãos que o confrontarem em futuras arruadas (como o Santana Lopes carinhosamente fez na TVI ao Ricardo Araújo Pereira).
Sim, porque tudo isto é, tão-só, afinal, Gente Que Não Sabe Estar.
E hoje foi assim… distraí-me com uma xaropada, sem importância nenhuma. Mas, era isto ou uma conversa séria sobre um perigoso populista, oportunista, fanático da cultura do ressabiamento e do ódio, que vai tomar assento no Parlamento e que, pior, está a ser arrumado a um canto, dando-lhe o pretexto ideal para se fazer de vítima e estrebuchar. (Não creio que o menosprezo seja o melhor caminho para evitar os perigos que ali despontam. Ao contrário, será preciso expor a vileza dos seus argumentos e a repugnância das suas propostas.)
E, por isso, era sobre isto que eu deveria ter escrito hoje, sim, mas a azáfama dos últimos dias levou-me o fôlego para tal empreitada. Não perderá por esperar, todavia, o Ventura, ele e mais as crias que por aí vai parindo…

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