Opinião: “Centro-direita numa encruzilhada”

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O que aconteceu nas eleições legislativas do passado fim-de-semana demonstra somente que em Portugal o centro-direita está numa enorme encruzilhada. Na verdade, apesar de o PSD se aguentar, muito por ação de Rui Rio, na globalidade, isto é, considerando todo o centro-direita, a derrota é humilhante. Comparando 2011, 2015 e 2019, é impossível não reparar na enorme perda de votos deste espaço político. Começando com uma votação expressiva em 2011, na qual o PSD e o CDS obtiveram 2 milhões e 800 mil votos, como resposta do país ao descalabro que foi a governação de José Sócrates, mas também acreditando em promessas de reformas que impedissem novos colapsos financeiros e colocassem o país numa rota de convergência com a Europa, o centro-direita foi perdendo grande parte desse apoio.

Assim, em 2015, com Passos Coelho a liderar o PSD e Assunção Cristas o CDS, a coligação PàF obteve cerca de 2 milhões de votos, isto é, perdeu cerca de 800 mil votos relativamente a 2011 (o que corresponde a uma perda de quase 29% da sua votação de 2011 ). É uma perda de votação brutal. Em 2019, o PSD e o CDS, agora separados, obtiveram 1 milhão e 636 mil votos, ou seja, perderam cerca de 364 mil votos relativamente a 2015 (o que corresponde a uma perda de 18% da sua votação de 2015 ). Assim, entre 2011 e 2019, o centro direita perdeu 1 milhão e 160 mil votos. A análise da abstenção mostra que votaram menos 530 mil pessoas em 2019, quando comparado com 2011, o que significa que grande parte das pessoas que deixaram de votar no centro-direita foi reforçar a abstenção. Aliás, isso é confirmado pelo incremento de votos no PS (cerca de 300 mil desde 2011 ) e no BE (cerca de 200 mil desde 2011 ).

Em Coimbra (distrito), a perda de votos é ainda mais significativa. O espaço centro-direita passou de 113.5 mil votos (em 2011 ), para 82 mil votos (em 2015 ) e para 61.7 mil votos (em 2019 ). Isto é, estes dois partidos perderam 51.2 mil votos no espaço de 8 anos, o que equivale a uma perda de 45.7% (quase metade) da sua votação de 2011.
Em Coimbra (cidade), o espaço centro-direita passou de 37.1 mil votos (em 2011 ) para 20.9 mil votos (em 2019 ). Ou seja, perdeu 16.2 mil votos na cidade de Coimbra em 8 anos.

Estes números mostram que o espaço centro-direita perde 6 mil e 400 votos por ano no distrito de Coimbra, o que equivale a 18 votos por dia. Na cidade de Coimbra, a perda é de 2 mil e 25 votos por ano, ou seja, cerca de 6 votos por dia.
É neste cenário que têm de ser vistas as estratégias a seguir. Verificar que, por exemplo, o PSD entra em convulsão sem fazer uma análise fria dos números, bem como daquilo que lhes deu origem, é a receita certa para muito mais perdas no futuro a curto-prazo. Verificar que o discurso apressado, com procura de soluções que, no essencial, tentam reciclar pessoas que estiveram envolvidas e foram responsáveis pela gigantesca perda de votos de 2015, quer a nível nacional, quer a nível local, só pode conduzir este importante e decisivo espaço político a ainda maior desastre.

Os eleitores deixaram um aviso muito sério a esse espaço-político, mostrando vontade de alterar o cenário de partidos: vários partidos entraram na assembleia da república, com votações que permitiram formar um grupo parlamentar com alguma expressão. O PAN elegeu 4 deputados e é previsível que partidos como o Livre, Iniciativa Liberal e Chega venham a reforçar a sua presença parlamentar num futuro próximo. Uns retirando espaço ao centro-direita, outros retirando pessoas da abstenção e, ainda outros, libertando fantasmas que não são nada recomendáveis (extrema-direita).

Tudo isto significa que o espaço centro-direita se tem de reformar, abrindo os partidos à sociedade, cativando novos protagonistas e clarificando o seu discurso (menos oportunista, centrado nas reformas necessárias para perspetivar o desenvolvimento sustentável a médio e longo prazo). Um discurso centrado na competência, na capacidade de resolver os problemas estruturais do país (médio e longo prazo) e em dar resposta aos problemas sentidos por todos nós (curto-prazo). Isto é, ou se renova, chamando para o seu seio novos quadros e renovando o seu discurso, esquecendo receitas e protagonistas do passado, ou tenderá a valer muito menos de 30%.

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