Opinião: À Mesa com Portugal

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Acredito que para a maioria das pessoas o marmelo só se faz notar na altura da azáfama da marmelada. Fruto de consistência dura, ligeiramente ácido e muito adstringente parece não ter utilidade até chegar o Outono, momento em que a ordem é de desbulhar, separar a polpa para a preparação da marmelada e as cascas e as sementes para a geleia.

Para mim, no entanto, a parte mais bonita e doce do ciclo do marmelo é quando me apercebo que nos ramos dos marmeleiros já despontam as flores de cinco pétalas de tom levemente rosado. Talvez seja pelo anunciar da Primavera como noutras tantas árvores de fruto, não sei. Mas a verdade é, todos os anos, reparo nelas em particular com um sorriso pela certeza do calendário. Para mim, a doçura da marmelada nasce com estas flores, nasce na Primavera.

Às voltas com um fruto que tanta tradição tem na doçaria portuguesa foi com surpresa que encontrei “The Portugal Quince” no dicionário de botânica escrito por Richard Bradley publicado em 1728. Após referir o fruto do marmeleiro mais vulgar (“ordinary quince-tree”) que refere ser de paladar difícil para se comer em cru, aquele autor fala do marmelo da cultivar “De Portugal” deixando alguns elogios na forma como o descreve. Ainda que registe que cozinhado com açúcar seja de paladar mais saboroso, refere que comido em cru “não ofende ninguém”.

A minha surpresa rapidamente transformou-se em orgulho por perceber que a descrição acerca “The Portugal Quince” ocupa muitas mais linhas que outras cultivares de outros países. Afinal, se calhar há motivos para nós termos tanta tradição de marmelada.

Para além deste registo histórico, atualmente, as cultivares mais frequentes em Portugal são a “De Portugal” e a “Gigante de Vranja”. Da primeira resultam frutos que se parecem com uma maçã e da segunda nascem pomos oblongos a lembrar mesmo o seio feminino. Este último é um fruto lindo e, por sinal, bem mais docinho.

Profícua no receituário, a marmelada tem fama longínqua e assume várias cores, texturas e formatos. Da vermelha à branca, da mais rija à mais cremosa, dos ladrilhos às taças, todas são boas e conquistam desde há muitos séculos o paladar dos portugueses. Conta-se que D. Nuno Manuel de Mendonça ( 1670-1732 ), 4º Conde de Vale de Reis, era conhecido pela alcunha de “Marmelada” tal era a sua preferência e, direi, gulodice por este doce. Sabemos, também, que as mesas abastadas eram alimentadas por uma grande produção de marmelada, quer por confeiteiros, quer pelas doceiras dos mosteiros e conventos.

Guardada em caixinhas de madeira para seu resguardo e transporte, a bendita marmelada era fruto apetecido por todos os que tinham posses para a comprar sendo que muita da produção partia com as embarcações portuguesas. Só em Lisboa, no século XVI, cerca de 40 carpinteiros asseguravam, por ano, uma produção de 20 000 caixas para o transporte da marmelada.
A mais famosa será, porventura, a de Odivelas que se distingue pela sua cor branca, o que provavelmente revela uma grande sabedoria e desvelo da doceira em evitar a oxidação dos marmelos após estes serem descascados.

Mas, na minha franca opinião, famosas são todas aquelas que são feitas pelas nossas mães, tias, avós ou por nós. Vamos aproveitar este Outono para apanhar os muitos marmelos que desesperam abandonados por essas estradas e vamos dar-lhe um final feliz, vamos fazer uma bela marmelada.

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