Opinião: Vivi intensamente a década de 60 do século passado

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Iniciei o curso de Medicina na Universidade de Coimbra em Novembro de 1961, época estudantil conturbada; contraí matrimónio em Setembro de 1967, o meu marido estava mobilizado para a guerra da Guiné e queria deixar descendentes antes de partir; licenciei-me em Julho de 1968 e fui mãe pela primeira vez em Agosto de 1969. No último trimestre de 1968 e primeiro de 1969, frequentei o Estágio Clínico obrigatório pós licenciatura, nos Hospitais da Universidade de Coimbra, tendo em Abril de 1969, após concurso documental, transitado para o 1º ano do Internato Geral das Carreiras Médicas Hospitalares, recém criadas. Durante os dois anos de Internato Geral reparti a minha actividade médica pelos serviços de Clinica Cirúrgica, Clínica Médica, Doenças Infectocontagiosas, Pediatria e Obstetrícia.
Todos os que frequentámos a Universidade nesta década de 60 do século passado e éramos poucos, vínhamos certamente de famílias que nos podiam sustentar longe de casa, pagando todas as despesas inerentes; muitos de nós nem tínhamos a exacta noção das necessidades dos que ficaram para trás…eu não tinha, confesso. O meu primeiro contacto com miséria, miséria geral sob todos os aspectos, foi neste início de 1970. Vi doentes que não sabiam ler nem escrever, alguns sem idade definida por não terem nunca sido registados, nasceram em casa sem condições mínimas… internei «doentes» sem doença, cheios de fome, desnutridos, só para comerem… internei «doentes» sem doença apenas com necessidade de um banho confortável que nunca tinham tomado… recordo com frequência um velhote que veio à urgência por prurido intenso, um cheiro nauseabundo, uma pele invisível de tanto esterco; internado para tomar banho, inicialmente recusou, mas convencido, cedeu; depois de lavado e limpo, olhou-se ao espelho da casa de banho e desatou a gritar em altos berros: «tiraram-me a pele querem matar-me»… mas sobreviveu. Não vou esquecer também a «guarda da linha», esquelética, mãe de onze filhos igualmente esqueléticos, que veio á urgência com queixas abdominais, arrependida por ter comido tanto! Habituada a comer somente «sopa de ervinhas» e «pão seco», sem meios para mais, prevaricou e comeu um pedaço de marmelada que tinham oferecido aos filhos e todos dividiram…internada para comer, melhorada, passou a voltar com alguma frequência acompanhada dos filhos, um de cada vez, todos com as mesmas queixas… dores abdominais…e ainda havia quem se queixasse da comida hospitalar! Mas vi muito mais quando em Janeiro de 1971 ingressei no Internato Complementar de Obstetrícia; recebi no serviço de urgência da MDM, grávidas já cadáveres por partos em casa não assistidos, roturas uterinas, infecções generalizadas, hemorragias, retenções de placenta, fetos mortos… já para não falar dos abortos clandestinos frequentes, mortais, caríssimos e com risco de prisão.
Felizmente testemunhei as mudanças de 360 graus feitas através dos tempos, que me deixaram orgulhosa, ao mesmo tempo pesarosa, por ter que me retirar por lei em 2014, aos 70 anos, sempre em exclusividade de serviço.
E ainda há quem duvide que a Melhor e Maior conquista de Abril foi o SNS! Louvemos todos que O fizeram nascer e crescer! Lutemos todos para O não deixarmos perder.

*escreve ao abrigo do anterior anterior AO

4 Comments

  1. Rita Teles says:

    Obrigada pela crónica. Poderia ter sido minha obstetra, mas ainda nasci em casa, com parteira… Mal menor face ao descrito. É urgente contar quem somos, porque o silêncio é cúmplice da impunidade e só podemos compreender as conquistas feitas percebendo de onde viemos. Felizmente a realidade narrada não era a prevalecente, mas ainda assim o seu peso ainda hoje condiciona o quotidiano. Sim, a Saúde e a Educação para todos são a grande conquista da Democracia e só possíveis em Democracia.

    • A realidade da miséria era a prevalecente e ainda hoje o seu peso negativo condiciona o quotidiano. Hoje continua a existir miséria e quem trabalhou e trabalha com ela, sente e sabe muito bem como se expressa, exemplifica ela, a miséria.

  2. MªJosé G. Pardal says:

    Parabéns pelo seu testemunho SrªDrª Teresa ! Há quem não saiba a vitória do SNA e da Educação face ao que tínhamos nos tempos anteriores ao 25/4/1974 . Testemunhei tudo isso nas aldeias por onde passei leccionando enquanto havia luz do dia,pois chegava a ter 56 alunos numa só sala (1965/66) . Só o grande respeito e espírito de missão nos fazia lutar pela vida dessas pessoas. Tinha o noivo em Timor com estudantes do último ano de medicina que por levarem comida a colegas detidos, foram mobilizados . Contudo, foi uma sorte irem para Timor,onde não havia guerra, e puderam desenvolver acção social desde alfabetização aos cuidados básicos de saúde.
    Creio que quando se luta pela melhoria de vida dos outros se fica com o espírito mais reconfortado! Bem-haja!

  3. Adélia Rodrigues says:

    Obrigada Dra. Teresa, pela sua crónica tão ilustrativa da realidade desses tempos tão difíceis para todos, e que faz, hoje, cada vez mais sentido lembrar, para que nunca mais se repita e, permita evidenciar as diferenças abismais no antes e no depois do SNS, por vezes, tão difamado e até desvalorizado, como se a vida pudesse ser a mesma com ou sem SNS. Só quem não passou pelas coisas pode acreditar nisso…Eu costumo dizer que vivemos noutro País, tudo é tão diferente que qualquer comparação é: comparar o incomparável – desde logo as relações interpessoais, a cultura, a mentalidade, as relações laborais, a liberdade de expressão, etc ,etc. Bem haja a todos os que lutaram e lutam para que seja possível viver este sonho tornado realidade. Onde, obviamente, nem tudo é perfeito. Mas, as diferenças são abismais e para melhor,felizmente!!!

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