Opinião: “Memória Coletiva e Arquivos”

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A nossa memória pessoal é infelizmente muito frágil e sentimo-lo com amargura quando algum dos suportes papel ou informática fica irremediavelmente perdido. Alegra-nos e acalma-nos um pouco que:
“Entretanto, o arquivo da Torre do Tombo, o da Universidade de Coimbra, o da Colegiada de Braga – nem visto sequer por Herculano – e tantos mais, uns em Lisboa, outros nas províncias, uns oficiais e públicos, outros particulares, todos aí continuam escondendo à nossa avara curiosidade muitos dos seus tesouros. É natural. Não se estima senão o que se conhece. É o nosso grande, o nosso terrível vício, é a ignorância, filha da preguiça”. 1

E são estes arquivos que uso para reencontrar uma história perdida na memória dos que se esqueceram dela, mentiram deliberadamente ou se deixaram enganar por “verdades” manipuladas para que o pareçam ser. E isso parece ser o envenenado pão nosso de cada dia.

Contra este processo de enganos a que devemos e temos de fugir para preservar a nossa sanidade e até a vida serve, mesmo que imperfeitamente, o que sabemos do passado. Contudo, muitas vezes quando os arquivos são pouco fiáveis ou estão desaparecidos, somos levados a acreditar que a nossa vida se irá continuar a degradar. Acontece só por não sabermos o que esta era no nosso passado recente em que tudo melhorava pois sabíamos que tudo podia ser melhor.

No caso dos professores há cerca de uma dúzia de anos, foi degradada a sua condição e, para isso, até foi criada uma estranha categoria: a de professor titular. Pior ainda, para alguns professores a atingirem organizou-se uma base de dados, em que eram omitidos muitos dos seus anos de trabalho e com isso muito do que tinham feito no passado e que demonstrava a sua qualidade profissional não contava. Ficaram por isso uns promovidos e outros com a carreira bloqueada, mas a ministra da altura impôs este contrassenso para conseguir a degradação da condição docente e impedir a progressão em geral dos professores. Era tudo para não gastar o dinheiro que tanta falta faz aos bancos, que deixaram degradar as suas finanças, usando para isso umas habilidades poucos contáveis. Mas como os governantes não consideravam possível e admissível que um banco falisse, queriam o seu resgaste custasse o que custasse aos lesados do costume.

Ganhámos com isso só um historial de bancos que desapareceram e deixaram um número incontável de lesados de que ninguém quer falar. Também ninguém quer falar da degradação da estrutura etária da profissão docente e da evidente degradação da escola portuguesa e, claro, daquilo que são os reflexos na qualidade da Educação. algo que é visível na qualidade dos serviços prestados por certos profissionais.

E temos de falar disso necessariamente, trazendo à consciência coletiva o que perdemos com tanta política cientificamente abstrusa.

1 Mendes dos Remédios – História da Literatura
Portuguesa, F. França Amado, Editor, Coimbra, 1908, p. xxv.

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