Opinião: “Entre a resignação e o desespero”

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Vamos iniciar um período eleitoral para o parlamento. Vi alguns debates e, no essencial, li os programas eleitorais das várias forças políticas. Também vi em detalhe as listas de candidatos. Tentei observar a opinião das pessoas e fui anotando o que fui concluindo. É preliminar, porque ainda falta muito ruído de campanha, mas partilho convosco algumas das notas que fui tirando.

1 ) A qualidade das listas a deputados é cada vez mais sofrível. A forma como são elaboradas – sem participação dos eleitores-, a total falta de escrutínio dos métodos de seleção, a forma como as cúpulas partidárias impõem pessoas de estrita confiança pessoal sem nenhuma representatividade local ou nacional, faz do exercício de votar um ato mais ou menos viciado. Cada vez mais “escolhemos” as “escolhas pessoais” de um muito pequeno grupo de pessoas. Em Coimbra, por exemplo, a qualidade das listas é, de facto, muito má. Aliás, aqui como em outros locais, os partidos não têm a menor atividade, existindo somente para disputar o poder e elaborar listas de “conhecidos do momento”. Os eleitores de Coimbra, bem como de outros distritos, completamente afastados das sedes partidárias, não são em nada motivados por essas listas e vão votar um bocado às escuras, tendo por base opções para o Governo do país e uma perceção vaga sobre o futuro a curto-prazo. As listas locais são totalmente irrelevantes para a “escolha” que eles vão fazer. Assim fica tudo em causa, nomeadamente a independência dos eleitos e a sua capacidade de representar a sua região. É tudo muito partidário, controlado e muito pouco democrático. Não fico admirado, por isso, com a grande quantidade de indecisos e de pessoas que afirmam que se vão abster ou votar nulo. O nosso sistema político precisa de uma enorme reforma. Isso é tão evidente que não percebo por que razão os eleitores que não são militantes de partidos (correspondem a mais de 98% dos eleitores), cientes da importância de ter bom Governo dos seus interesses, atuam como se não fosse nada com eles;

2 ) Na caça ao voto parece não haver limites. Desde partidos de extrema-esquerda que, percebendo a repulsa que originam no eleitorado moderado, anunciam que são social-democratas, tudo prometem e para tudo têm solução, incluindo o prioritário problema da evaporação de água nas barragens ou até simulações ridículas sobre pagamento de impostos. Num dos exemplos de um programa eleitoral refere-se uma casa comprada por 100 mil euros, na qual se fizeram obras de 200 mil euros e que teria sido vendida por 2 milhões de euros (ou seja, um lucro de 1.7 milhões de euros, fora IMT, escrituras, etc.). Com este exemplo pretendem demonstrar que o modelo proposto de IRS é mais interessante: no modelo atual em vigor o génio que fez este negócio pagaria 24%, no proposto pelo tal partido passaria a pagar 35%. Génio porquê? Porque um negócio destes, à la Robles, com um lucro de 560%, só existe nas drogas, na cabeça de certos militantes ou em certas empresas que compram barato à Segurança-Social (sabe-se lá como) e vendem com esses lucros fantásticos. Mas também outros partidos emergentes que anunciam um SNS para animais, entre muitas outras novidades que são, de facto, hilariantes, incluindo as daqueles que, tendo apoiado o Governo atual e votado favoravelmente todos os orçamentos (onde estava previsto um défice orçamental), anunciam agora que, se calhar, o défice real é muito maior do que aquele que aparece nas contas (que, por acaso, aprovaram).

3 ) O PM António Costa, numa tentativa de encostar o BE e atrair o voto moderado, anuncia numa entrevista que um Governo em que participe o PCP e/ou o BE não funcionaria, nem seria coeso, pois os 3 partidos defendem coisas muito diferentes em questões essenciais. Ou seja, seria impossível governar com esses partidos que são o seu suporte parlamentar. Surreal? Não, é somente uma muito sub-reptícia estratégia eleitoral para conseguir maioria absoluta.

No essencial, os eleitores assistem a tudo isto com aparente resignação. As sondagens dizem isso com toda a clareza. Entre o que já conhecem e o risco de uma mudança para algo sem alma e sem ambição, os portugueses, totalmente avessos ao risco, resignam-se a uma solução de continuidade. E tudo parece estar resolvido há muito tempo. No entanto, há uma muito pequena distância entre a resignação e o desespero, que, se percorrida, pode mudar tudo.

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