Opinião – Eleições: as redes sociais como barómetro

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Esta crónica ocupa-se de um universo que muitos rejeitam ou consideram irrelevante. Não posso discordar mais desta atitude. Como acontece com o telefone ou a televisão, podemos virar as costas às redes sociais, mas não podemos viver sem elas. Oferecem excelentes possibilidades de aprendizagem, partilha e divulgação, bem como de encontros e reencontros, embora, é verdade, abram também espaço para a mentira, a exposição da ignorância e o ódio, levando a que frequentes vezes nos cruzemos com pessoas que na «vida real» evitaríamos. Só que existem, não irão desaparecer, e de um ou de outro modo influenciam poderosamente as nossas vidas. Por isso, não convém ignorá-las.
O sucesso desta ferramenta de comunicação deve-se à facilidade de acesso, ao baixo custo e também a possibilidade de dar voz pública a quem habitualmente a não tem. Ao mesmo tempo, porém, permite que se escreva e se opine sem se ter o hábito de o fazer, podendo qualquer um afirmar o que deseje sem pensar duas vezes ou com objetivos pouco claros. É esta, aliás, a principal origem do seu perigo, sendo também por isso que muitas pessoas as rejeitam.
Não me excluo desta paisagem. Uso a Internet desde os seus inícios, tendo sido também dos primeiros em Portugal a aderir ao universo dos blogues e das redes. Não foram poucas as vezes nas quais, dado o meu interesse pela observação crítica do mundo e pela opinião, ali afirmei algo menos sustentado ou usei uma linguagem mais solta. Mas também não me foi difícil compreender de que modo, à medida que o uso do meio se foi alargando a um número cada vez maior de utilizadores, isso poderia levantar problemas de comunicação. Aliás, observo este conflito todos os dias, quando vejo pessoas que conheço pessoalmente, algumas delas detendo responsabilidades públicas, a comunicar nestes espaços num registo e numa linguagem que não lhes conhecia e nelas julgaria até impossível.
Em alguns momentos esta situação emerge de um modo mais acalorado. Quando surgem no debate público temas particularmente controversos – ou que as próprias redes artificialmente agudizam – ou então em alturas mais favoráveis ao conflito, como durante as campanhas eleitorais. Neste caso, ela tem lugar justamente quando deveria instalar-se um debate democrático, sem dúvida intenso e apaixonado como devem ser todos os debates, mas ponderado e racional. No entanto, é justamente nestas ocasiões que despontam – mais até neste espaço das redes sociais que na rua, nos jornais ou nas televisões – atitudes que impõem justamente o contrário.
Tornam-se então a regra os ataques pessoais, os juízos gratuitos, a incapacidade para discutir sem ser de pedra na mão. É claro que para muitos cidadãos, essa é já a forma habitual de estar e de conviver, fazendo das suas vidas um contínuo campo de batalha, e não se esperaria que mudassem de repente. Sobretudo quando se podem expressar de forma tão reativa e informal. Todavia, não é a eles que me refiro, mas antes a quem tem o dever de usar a razão: certos dirigentes partidários, alguns militantes de causas, muitos jornalistas, que pelo contrário ocupam as redes sociais de uma forma agressiva. Algo de surpreendente, por vezes até de chocante, justamente por ser feito por quem tem o dever de rejeitar e de combater esse comportamento.
Montaigne, que no século XVI montou a sua própria rede social ao escrever ensaios e aforismos destinados a ser lidos e partilhados da forma o mais eficaz possível, suscitando uma reação do leitor – recorrendo, por vezes, a frases que caberiam hoje numa linha do Twitter – escreveu certa vez: «Quando me contrariam, despertam a minha atenção, mas não a minha cólera.» É esta sabedoria, com perto já de quinhentos anos, que poderíamos aplicar a situações desta natureza. Nada disto pode, é claro, significar a rejeição do debate intenso e do conflito de ideias e projetos. Bem pelo contrário, pois sem eles a democracia não existe, as sociedades paralisam e facilmente tombam na tirania. Mas quem tem maiores responsabilidades políticas tem o dever de saber moderar o discurso, pois, recorrendo de novo a palavras do filósofo francês, «as palavras pertencem em metade àquele que as pronuncia e na outra metade ao que as escuta». Assim é também nestas redes, que podemos ignorar, mas servem de barómetro.

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