Opinião: Dos apelos pungentes às atrações fatais

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Do extenso balcão do alto do terceiro andar de onde começou a ver o mundo, o petiz ouviu uns ténues sons vindos do matagal do quintal. Curioso, como qualquer criança, desceu, e descobriu, numa barrica em ruínas, uma só cria há pouco nascida. Mas logo surgiu a feroz progenitora, que bufando, pôs o garoto em fuga. Quando, do cimo da larga varanda, o miúdo percebeu as felinas idas e vindas, voltou ao quintal, para observar melhor um gatito tão pequenito como nunca tinha visto! Quando tentou agarrar a ferazita, esta, como qualquer outro ser bravio, eriçou o pelo de medo, causando igual pavor ao outro pequeníssimo ser que, afinal, só o queria afagar e proteger.

Mas o gaiato era pertinaz e audaz, pelo que no final daquela tarde estival, lá conseguiu agarrar o bichano, levando-o para a varanda, onde tinha ajeitado uma camita e posto parte do leite do seu lanche. Só que enquanto do pátio a gata o chamava, o gatito miava sem parar, e nem o leite provava, para inquietação do petiz, que acabou por adormecer a sonhar com as brincadeiras que teria com o “seu gato”, no dia seguinte… Quando acordou, correu para a varanda, mas do tareco nem sinal. E foi só quando se debruçou da grade que o viu estatelado, jazendo no frio e cinzento cimento, sem dar sinal de vida. Aquela imagem triste nunca mais o abandonou ao longo da vida.

Pelo que cedo começou a pensar que ninguém tem o direito de dispor de outros seres, seja com que intenção for, sobretudo sem se assegurar que lhes proporcionará a segurança devida. E foi crescendo a meditar que todos têm direitos que ninguém deve ofender, até entender que também não se devem criar expetativas que não possam ser cumpridas por quem as prometer. Muitas décadas depois, e porque ainda assim o julga, mantém o hábito de criticar quem evidenciar falta de rigor, e sobretudo, de ética. Mas a história daquele menino, hoje tão entradote, ainda perdura.

Pelo que vem acompanhando a gesta de quem tem o despudor de se servir de tudo e de todos para progredir. Só que a história de este outro ser não é para crianças, mas para quem tiver a pele bem rija! E logo se verá o que fará quem tem a sede imensa de governar amparando familiares de solícitos governantes e compadres, desde que leais, manejáveis e férreos membros ou simpatizantes do partido político de um secretário-geral tão sorridente quanto agnóstico, mas que já desfilou, no arquipélago do seu presidente, numa das procissões do Senhor Santo Cristo…

Entretanto, os antigamente tão jovens quanto o rapazote daquela primeira história, temem que a segurança social fique sem recursos que paguem fracas reformas, e os filhos, netos e bisnetos de aqueles e de outros catraios, olham para o futuro do país que é deles, e nosso, sem saber se terão trabalho e direitos garantidos toda a vida, e se quando os ventos da recessão voltarem a soprar, a economia nacional terá resiliência para resistir ao ciclo de vacas magras que já tantos antevêem.

E se mesmo estando o SNS em frangalhos, o PAN pretende um “sns para animais”, e BE, CDS, PCP, PS, PSD, e tantos outros partidos prometem o que lhes apetece, não admira que o outrora menino pense que se todos os líderes políticos tivessem tido vivências marcantes como a dele, só uma imensa falta de sensatez os impediria de se unirem em torno do que o país mais precisa.

Maior investimento privado e melhor investimento público. Muitos postos de trabalho rigorosos e bem pagos. Educação muito exigente e mais promissora. Investigação profícua. Justiça célere e eficiente. Transparência na banca, política e administração pública. Forte solidariedade social. Exemplos do muito que não foi feito nesta legislatura. Oxalá a próxima dure o previsto, e o país se desenvolva mais do que tem sucedido, para bem de todos os putos. Dos que hoje são jovens, dos nascituros, e até dos que continuarão a ser sempre uns garotos, tenham a idade que tiverem!

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