Opinião – Breve história do café (II)

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A origem do café está na Etiópia, onde os cafezeiros sempre existiram na natureza, mas foi no Yémen que se instalou o hábito de beber café, posteriormente imitado pelos árabes de Meca e depois pelos turcos de Constantinopla e pelos egípcios do Cairo. Os venezianos que residiam no Egipto (Cairo) e na Turquia (Constantinopla) levaram este hábito para a Europa. Devido à estreita proximidade entre os venezianos e os turcos, motivada pelo comércio, Veneza poderá ter sido responsável pela introdução do hábito de beber café na Europa.
Jean De La Roque coloca a hipótese de ter sido o italiano Pietro della Vallé ( 1586-1652 ) um dos primeiros a informar os venezianos sobre as potencialidades do café. Pietro della Vallé viajou pelo Oriente desde 1614 até 1626. As suas memórias foram publicadas pelos filhos, em 1658 e em 1663, sendo traduzidas para a língua inglesa em 1665.
Pietro della Vallé nasceu em Roma no dia 2 de Abril de 1586. Partiu de Veneza ( 8/6/1614 ) em direcção a Constantinopla (Istambul), onde iria residir durante mais de um ano. No dia 25 de Setembro de 1615, partiu de Constantinopla para Alexandria, Cairo, Monte Sinai e Jerusalém, onde chegou no dia 8 de Março de 1616. Continuou as suas deambulações por Damasco, Alepo, Bagdad e Pérsia (Irão). Em 1621 visitou Persépolis e Shiraz, no atual Irão, e em 1624 visitou a Índia, Goa e Surat. Em Janeiro de 1625 encontra-se em Muscate (Omã) e em março está no atual Iraque. Regressa por Bassorá, Alepo, Chipre e Roma, onde desembarcou no dia 28 de Março de 1626. Morreu no dia 21 de Abril de 1652.
Alain Stella escreveu que, em 1674, em Londres, “puritanos e mulheres rejeitadas mas também cervejeiros, uniram-se contra a beberagem preta”, contra o que consideravam ser uma bebida diabólica, excitante e pretensamente inebriante. Assim, imprimiram um folheto que foi distribuído pelas ruas da capital do império britânico, intitulado, “The Women’s Petition against Coffee, representing to publick consideration the grand inconveniencies accruing to their sex from the excessive use of that drying, enseebling liquor”.
Barthélemy D’Herbelot de Molainville redigiu na sua obra Bibliothèque Orientale ou Dictionnaire Universel ( 1697 ), qual a opinião de um autor árabe, sobre o café. Assim, Abdalcader-Ben-Mohammed, escreveu um livro intitulado “Omdat al Safuat si hall al Cahuat”, onde incentivava o consumo do café.
Em 1684, foi publicado em França, um tratado redigido por Philippe Sylvestre Dufour ( 1622-1687 ), intitulado Traitez nouveaux & curieux du café, du thé et du chocolate, ouvrage egalement necessaire aux medecins, & a tous ceux qui aiment leur santé. De acordo com este autor, o café foi conhecido em França, por volta do ano 1645.
Em 1687, o médico francês Nicolas de Blégny ( 1652-1722 ) publicou um tratado com o título Du bon usage du Thé, du Café & du Chocolat. Os europeus tinham muita curiosidade em relação a estas novas bebidas que estavam a surgir e a generalizar-se pelo velho continente.
Em 1716, foi publicada em França a obra, Un Mémoire Concernant l’Arbre & le Fruit du Café (…) et un traité historique de l’origine & du progrès du café, tant dans l’Asie que dans l’Europe, de son introduction en France & de l’établissement de son usage à Paris, onde é referida a obra do médico e botânico francês Pierre Belon ( 1517-1564 ) e a obra do médico veneziano Prospero Alpini ( 1553-1617 ) mas também do médico e botânico alemão Johann Vesling ( 1598-1649 ), que viajou pelo Egipto e Palestina, onde tomou contacto com o café e escreveu sobre as suas pretensas propriedades medicinais.
Pierre Belon viajou pelo Egipto e Médio-Oriente entre 1546 e 1549. Em 1553 publicou o relato das suas viagens: Les Observations de plusieurs singularitez et choses memorables trouvées en Grèce, Asie, Judée, Egypte, Arabie et autres pays étrangèrs.
Muitos viajantes e escritores ocidentais, como Gérard de Nerval ou Pierre Loti descreveram a arte de beber o café nos países que visitaram no Médio-Oriente.
Será neste contexto que os negociantes e armadores de Saint-Malo, com a forte oposição dos comerciantes de Marselha, que importavam o café de Veneza, do Egipto e da Turquia, irão organizar as duas primeiras viagens marítimas ( 1708-1710 ) e ( 1711-1713 ) dos franceses ao Yémen, no intuito de adquirir diretamente grandes quantidades de café, cujo consumo aumentava exponencialmente por toda a europa.
Pêro da Covilhã, português e espião, ao serviço do rei D. João II, residiu na Etiópia, sensivelmente entre 1490 e 1526 e deverá ter sido dos primeiros europeus a beber café. No entanto, nem escreveu sobre o tema, nem incentivou os seus conterrâneos a enveredarem pelo comércio deste produto. O eventual espírito empreendedor dos portugueses nem sempre terá sido devidamente potenciado.

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