Opinião – Almofada financeira

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A Comissão europeia diz-nos que o PIB português cresceu 1,8% (comparativamente ao ano anterior) no primeiro trimestre de 2019, uma vez que a forte procura interna continua a compensar as fracas exportações líquidas. O crescimento do consumo privado diminuiu um pouco e aumentaram as importações, o que contribuiu para o aumento negativo das exportações líquidas. No fim de contas, o que continua a suportar o crescimento é o sector de serviços, com amplo destaque para o turismo, pois o desempenho industrial está a sofrer com uma diminuição das encomendas externas.
É um cenário preocupante, especialmente tendo em conta o impacto do Brexit na afluência ao nosso país de turistas ingleses. Tal como os alemães, uma vez que a economia alemã, a maior da Europa, pode entrar em recessão, um país que está no podium das importações e exportações das nossas relações comerciais e que tem um peso muito significativo no comércio internacional de Portugal. Angela Merkel ainda acredita que a Alemanha possa crescer um bocadinho este ano, uma vez que algumas medidas fiscais já foram adoptadas para estimular a economia. Apesar disso, o FMI desceu as suas expectativas quanto ao crescimento da economia, especialmente por causa da guerra comercial com a China e as suas tarifas aduaneiras, o Brexit sem acordo e as tarifas aduaneiras que os Estados Unidos estão a aplicar nas importações de carros. Sendo a economia alemã um portento de exportações, todo este clima desfavorável mundial faz-se sentir severamente. Daí que o ministro das finanças alemão já tenha assumido que o seu país está pronto a injectar “muitos, muitos biliões de euros” na economia e que vai mesmo abrir os cordões à bolsa para combater a tendência negativa e uma possível crise ou recessão, o que sucederia pela primeira vez desde 2013.
E Portugal? Que faremos nós perante uma cenário negativo, quando temos a maior carga fiscal de sempre, dívidas que nunca mais acabam e um investimento público abaixo do período da troika? Até agora António Costa falou da recuperação e Rui Rio contrapõe com a preparação do futuro, mas com cenários favoráveis que dêem tempo para criar almofadas financeiras. E se não houver tempo? Passos Coelho dizia que tínhamos poupanças para os próximos anos e que a almofada financeira (expressão utilizada pela então ministra das Finanças) representava uma política de prudência recomendável no contexto em que vivíamos. No fundo, dizia Passos Coelho que “Portugal sabe hoje muito bem o preço da imprudência e de não ter reservas nem credibilidade para obter financiamento.”
O ministro das finanças alemão também tem uma almofada financeira, pronta a usar se necessário for. Que dirá hoje Catarina Martins, a coordenadora do Bloco de Esquerda sobre este ministro? Cito-a quando ainda era da oposição: “Cofres cheios? Então não é almofada – é quarto, é casa. Podemos imaginar Maria Luis Albuquerque mergulhada num balde cheia de dinheiro, tipo Tio Patinhas. O problema é que o dinheiro não é dela.” Desde então o dinheiro foi gasto, porque ideologicamente o dinheiro é mesmo para gastar, de preferência onde a geringonça quiser. O balde que tínhamos foi todo furado. Estará Portugal preparado para uma eventual recessão?

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