Opinião – À mesa com Portugal

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Ainda me lembro do anúncio que, há uns anos atrás, era divulgado nas televisões portuguesas e que advogava que beber três copos de leite por dia era dar um passo na luta contra uma das doenças mais limitadoras, a osteoporose. Isto, claro, era num tempo em que ainda não se tinha declarado guerra ao consumo de leite, sobretudo por adultos. Se o senso comum nos dizia que a ingestão de leite permitia a absorção de cálcio, elemento fundamental para o crescimento saudável das crianças e para o envelhecimento ativo, a ciência reforçava essa ideia com a verdade científica. Depois, o leite foi transformado no quase inimigo nº1 da saúde pública nacional e as verdades científicas vieram dizer que os adultos deviam evitar e até erradicar o leite da sua alimentação. Lá se deixou de ver o tal anúncio que mostrava as senhoras de meia idade a beberem um copo de leite.

Verdade científica, senso comum. Nesta guerra do leite nunca foi possível perceber quando um tomou o lugar do outro e, a certa altura, não consegui descortinar se por detrás do diálogo de surdos que se gerou não estariam interesses ligados à indústria agro-alimentar.

E o azeite? Antes era uma gordura má. Hoje é uma gordura boa. Antes devíamos comer as saladas com pouco azeite. Hoje devemos ser generosos e comer em abundância. Valeu ao azeite a descoberta da “Dieta Mediterrânica”, conceito criado por um americano que cada vez mais entra no discurso publicitário e se prepara para ser uma linha base na caraterização da nossa alimentação esquecendo outras dietas nacionais.

Ideologia alimentar? Claro que sim! Imposição de modelos de consumo baseados, ora no senso comum, ora em verdades científicas, que quem está em lugares de gestão aproveita para transmitir. Agora, chegou a altura da carne de vaca. Depois das infelizes terem sido desacreditadas com a de má memória “doença das vacas loucas”, voltaram a ser notícia de jornal pela proibição do seu consumo nas cantinas da UC. Diz o “Magnífico” Reitor que é para tornar a UC “a primeira universidade portuguesa neutra em carbono”. Preocupado com o ambiente, o Reitor impõe ideologia alimentar através daquilo que ele considera ser um comportamento responsável para com o futuro do planeta. Sinceramente, quando ouvi esta notícia julguei que se tratava de uma brincadeira relacionada com as praxes de recepção ao caloiro. Não acreditava que no seio da UC se transmitisse uma verdade científica tão pouco credível. É claro que a produção intensiva de carne não faz nada bem ao ambiente, mas porquê preocupar-se com as vaquinhas e não com a suinicultura? Ou com os aviários industriais? Para além da muito falada poluição dos rios e dos lençóis freáticos que a produção de ambos acarreta, são sujeitos a cargas brutais de medicação para uma maior rentabilidade. Comemos uma carne de porco que é uma miséria de sabor. Ingerimos não carne de porco ou de galinha, galo ou frango, mas uma carne mole, completamente descaraterizada no sabor e que é um autêntico cocktail de antibióticos e demais químicos.

Mas o Senhor Reitor não pensou na forma como as pescas estão a ser feitas. Para se pescar o que tem valor comercial, retiram-se do mar muitas espécies que acabam no desperdício. Pior, a aquacultura intensiva e de baixa qualidade dão-nos peixes cujo sabor e valor nutricional é muito questionável. Podemos falar dos hortícolas, embora tenha dúvidas se vale a pena pois pode ferir alguns espíritos convictos de que “é tudo natural, é o que a terra dá”. Das alfaces às batatas é um rio de lágrimas ou, direi, de pesticidas disfarçados da elegante designação de “tratamentos fitossanitários”.

Ficava feliz, mesmo tão feliz se o Magnífico Reitor da minha Universidade se preocupasse com o esclarecimento e fomentasse verdadeiras atitudes e comportamentos alimentares responsáveis e comprometidos com um futuro melhor para todos. Se em vez de proibir (noutras alturas, tal poderia ser uma afronta ao livre exercício dos direitos de cidadania, mas hoje o amén entre sociedade, poder político e saber científico é mútuo e o que é preciso é ser “moderno” que a minha verdade é mais verdadeira que a tua) se trabalhasse para que os produtores de carne bovina ou suína da região de Coimbra pudessem ser fornecedores dos Serviços de Alimentação da UC, isso é que era evoluir. Ganhavam os produtores que viam, assim, rentabilizada a sua produção com a garantia de escoamento. Ganhavam os estudantes consumidores que comiam carne com sabor e isenta de maltratos químicos. Ganhava o ambiente com a menor pegada ecológica. Ganhava a região que se desenvolvia. Mas não. Proibir é muito mais interessante. Saímos nos jornais, somos falados pela forma “pioneira” como tomamos medidas contra o flagelo mundial.

Mesmo às portas de Coimbra temos uma produção de excelência de Carne da Raça Marinhoa. Convém referir que os animais são alimentadas, ora em pastoreio direto, ora à majedoura com feno, palha, milho e outros produtos culturas produzidas na região. Os animais andam em liberdade e são tratados com grande dignidade por quem deles cuida. Uma atitude bem mais inteligente era promover a divulgação desta Raça Autóctone entre os estudantes e possibilitar o seu consumo. Mais, se esta ação fosse integrada num conjunto de medidas que promovessem uma alimentação baseada na sustentabilidade, no equilíbrio ecológico e descoberta da identidade seria promover verdadeiramente espíritos esclarecidos como aqueles que já fizeram da nossa UC uma referência na inteligência científica nacional. E isso sim, seria ser pioneiro.

 

Olga Cavaleiro escreve à segunda-feira, quinzenalmente

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