Opinião: A ditadura da beleza

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Como já terão todos percebido, gosto pouco de eufemismos e, por isso, vou directa ao assunto: sou gordinha, anafada, badochinha até, para alguns espíritos mais exigentes.

Como gosto de me rir de mim própria, revejo-me na Dona Sandra da série Fonseca dos Gato Fedorento a quem o Ricardo Araújo Pereira, em versão ‘velha invejosa e sem-papas-na-língua’, dizia “ainda bem que fez dieta. Estava inchada e goooorda… balofa, parecia uma porca, banhosa, muito luzidia… com uma pança grande e pesadona, estava nojenta, pronto… parecia que largava gosma, que tinha sebo agarrado à pele…”. E rio-me tanto da maldade da velha como da parvoíce da moçoila que desatou a chorar perante tais impropérios e ainda ouviu um delicioso “sentiu-se mal certamente… as dietas é no que dão”.

Como diz o povo, não há fome que não dê em fartura e no meu caso assim foi também. Se na minha juventude me apoquentava uma teimosa magreza que me valia um irritante “não tens rabo para as calças”, hoje poucas vezes as calças se mostram suficientes para bem acomodar os excessos que a idade e as gravidezes se encarregaram de fazer crescer. Digo excessos, mas, em bom e popular português, são mais uns belíssimos pneus, autenticíssimos, já que não alinho em promissoras recauchutagens.

Mentiria se anunciasse o meu grande apreço pelos quilogramas que carrego a mais, mas também faltaria à verdade se dissesse que me disporia a qualquer receita para deles me livrar. Devo, aliás, adiantar que, nos últimos tempos, ando com eles bastante enfurecida (por me fazerem cansar mais depressa do que gostaria e – aqui entre nós que mais ninguém me lê – por não me deixarem gozar de uns quantos vestidos que já me assentaram que nem uma luva) e, por via daquela fúria, estou determinada a não lhes dar tréguas. Vou fazendo uma espécie de dieta (esconjurei os pérfidos doces e hidratos e fiz juras de amor a uns quantos legumes insonsos e desenxabidos a quem me vou mantendo mais ou menos fiel) e, pela primeira vez numa boa dúzia de anos, tenho caminhado regularmente na expectativa de vencer aqueles malvados quilinhos pelo cansaço (e pelo suor, claro está).

E é difícil, de facto, na era dos milagres tecnológicos, aceitar um processo tão lento e desesperante, tanto mais que o meu corpo terá decidido vingar-se dos meus pecados passados e faz finca-pé em não se deixar minguar, mas afianço-vos que jamais cederei a qualquer tentação que comprometa a minha integridade para mostrar obediência a esta ditadura da beleza que nos (des)governa.

E, por isso, apetecia-me dar um berro àquele jovem rapaz que continua internado depois de ter arriscado a vida em nome de um corpo perfeito. Apetecia-me berrar (a ele e a nós) um poema de Emily DicKinson que reza assim: “Os seres mais bonitos da floresta/ Recebem-me com muita festa/ Os rios riem alegres quando eu passo/ Brinca mais doida a vibração/ Porquê, então, olhos meus, toda essa névoa?/ Porquê, ó dia de verão?”.

Porquê?

A mesma poetisa também escreveu “Morri pela Beleza, mas mal me tinha/ Acomodado à Campa/ Quando Alguém que morreu pela Verdade/ Da Casa do lado/ Perguntou baixinho «Por que morreste?»/ «Pela Beleza», respondi/ «E eu, pela Verdade. Ambas são iguais»”.

Pois, concordo absolutamente!

A verdade é a graça, a sintonia, o ‘je ne sais quoi’ que nos encanta, apesar dos narizes grandes ou dentes tortos, dos olhos estrábicos ou pernas tortas. Bendita gente autêntica, irreplicável, cheia de jeitos e trejeitos!

A beleza não sei bem o que é, pois são imensas as suas cores, formas e feitios, é camaleónica e surpreendente, mas sei que é única como todas as coisas boas.

E é isso que as torna iguais, são ambas ímpares.

Por isso, tenho pena, muita pena, dos nossos frágeis Ângelos e zango-me connosco, com esta sociedade refém de uma brutal ditadura de aparências que nos enfileira num rebanho de ovelhas, perfeitas e iguais.

Não gosto. Prefiro as tresmalhadas, negras ou gordas, carecas ou marrecas, que, por serem verdadeiras, são sempre as mais belas.

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