“Militância” de programadores fora dos grandes centros está a alterar a paisagem cultural do país, diz investigador

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O investigador António Pinto Ribeiro saudou hoje, em Minde (Alcanena), a “militância” de programadores que saem das grandes cidades para produzirem festivais em zonas periféricas, contribuindo para “a alteração da paisagem da programação cultural em Portugal”.

Convidado a moderar o debate “Entre a Urbe e a Serra: a experiência do Festival Materiais Diversos”, que juntou, no Ponto de Encontro instalado na praça Alberto Guedes, em Minde (distrito de Santarém), Tiago Guedes e Elisabete Paiva, o anterior e a atual diretora artística do Festival Materiais Diversos (FMD), António Pinto Ribeiro considerou este festival “um caso de sucesso” e mesmo de “exemplo internacional”.

Para o programador cultural e investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, a realização de festivais em zonas rurais, semirrurais e periféricas foi “uma das inovações interessantes e que porventura mais contribuíram para a alteração da paisagem da programação cultural em Portugal”.

Às dificuldades apontadas pelos programadores, com a falta de apoio e de visão das autarquias à cabeça, Pinto Ribeiro frisou que, apesar “da falta de investimento dos poderes autárquicos, que estão muito desligados e desconsideram” estas intervenções, “vale a pena” que estes projetos “continuem e insistam, para bem” das populações.

A permanência destes projetos nestes território “permite que estas pessoas, que de outra forma não têm acesso a espetáculos, por razões diversas, de acessibilidade, poder de compra, etc.”, tenham à sua disposição “programações que são pensadas, que são maturadas” e, que, pelas ligações nacionais e internacionais destes programadores, assumem também uma dimensão cosmopolita, que atrai públicos das grandes cidades, disse.

Pinto Ribeiro referiu ainda a “pedagogia do espetador” desenvolvida por festivais como o FMD, ao darem às pessoas “chaves” que as ajudam a interpretar a “complexidade da leitura de um espetáculo”.

Ana Maria Capaz, uma das habitantes de Minde que desde o início abriu as portas de sua casa para acolher equipas e artistas do FMD, e que hoje se sentou num dos banquinhos colocados na praça para ouvir o debate, reconheceu que não entende muitos dos espetáculos que vê no festival, mas salientou como o ter acesso a esta programação permitiu enriquecer a sua forma de pensar.

“Se não fosse o Materiais Diversos nunca ia ver um espetáculo deste tipo”, disse, salientando o facto de não se tratar de uma coisa pontual, mas de algo que acontece regularmente.

“Uns gosto, outros não, uns entendo, outros não”, disse, contando como, antes de cada festival, pede uma “visita guiada” à programação para “ter noção” da oferta e fazer as suas escolhas.

Criado por Tiago Guedes, atual diretor artístico do Teatro Municipal do Porto, em 2009, depois de uma experiência como coreógrafo em França, o Festival Materiais Diversos “ancorou-se” na relação e no envolvimento da comunidade (agentes culturais e habitantes) da terra de onde é natural, com a consciência de que iria criar “atrito”, uma “fricção estética, política e social”.

Para António Pinto Ribeiro, “a programação artística e cultural é política, não há outro modo de o ser, porque é interventiva, porque tem a ver com a forma como os cidadãos se reúnem à volta de um projeto”, disse.

Do debate de hoje vai sair a contribuição de António Pinto Ribeiro para o livro que a Materiais Diversos está a preparar para celebrar as dez edições do festival.

O FMD arrancou na sexta-feira em Minde e Alcanena, tendo agendados, até 05 de outubro, 17 espetáculos, cinco deles estreias absolutas e quatro estreias nacionais, e dezenas de atividades, numa programação que a partir de dia 02 estará centrada no concelho do Cartaxo.

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