Os novos guardadores de rios

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Foto Lusa – António Cotrim

No Lagar do 25, entre as aldeias de Valongo e Troviscais Cimeiros, a ribeira de Frades tem salgueiros e cheira a erva cidreira. Começou ali um olhar novo sobre técnicas antigas de cuidar dos rios e ribeiras.

O novo olhar é a recuperação de forma natural das linhas de água afetadas pelos grandes incêndios de 2017 e 2018, usando técnicas antigas, produtos locais, aproveitando árvores queimadas e ramos secos para fazer diques e consolidar margens.

O concelho de Pedrógão Grande foi o primeiro a ser afetado nos incêndios de 2017 e foi nele, nas ribeiras de Frades e de Pera, que se iniciaram as intervenções de regularização fluvial, financiadas pelo Fundo Ambiental, que hoje já atingem 950 quilómetros de linhas de água de 67 concelhos, num investimento superior a 16 milhões de euros.

Em Pedrógão o projeto começou em novembro de 2018 e terminou em junho, explica Margarida Guedes, vice-presidente da Câmara, que o considera “absolutamente importante” já que envolveu todas as ribeiras do concelho, que “estavam em péssimo estado”.

“Sem esta intervenção do Ministério do Ambiente, do Fundo Ambiental, não teríamos conseguido fazer o que fizemos, porque são montantes elevados, de mais de meio milhão de euros”, diz a autarca à Lusa junto do açude do Gravito, na ribeira de Pera, lembrando também o envolvimento nos projetos de todo o concelho, desde escolas a associações e proprietários.

Ao todo foram 69 pontos de intervenção de engenharia natural nas quatro ribeiras do concelho, em zonas mais debilitadas (34,5 quilómetros), removendo sedimentos, recuperando margens, consolidando-as, trazendo espécies autóctones de volta, tudo de forma natural, sem máquinas e sem betão. “Conseguimos recuperar a grande maioria dos pontos importantes”, diz Margarida Guedes.

Foi assim junto da aldeia da Maranhoa, não muito longe da aldeia de Escalos Fundeiros. Sofia Carmo, técnica superior de ambiente na autarquia, fala do trabalho apoiado pela empresa Engenho e Rio e pela Universidade do Porto, além do especialista em reabilitação natural de rios Pedro Teiga.

O trabalho, resume à Lusa, consiste em usar técnicas de engenharia natural para fazer podas de formação de novas árvores, limpar os leitos, estabilizar, reabilitar. E agora os técnicos da autarquia também já aprenderam a fazer faxinas, entrançados, micro-açudes, estacarias para conservar a vegetação à volta dos cursos de água.

E recuperou-se a biodiversidade da fauna e flora. Sofia Carmo fala com entusiasmo. Há animais que voltaram às ribeiras de Pera, de Nodel, de Frades, da Bouçã. “Isto são nichos ecológicos e as linhas de água são extremamente importantes neste concelho. Eu diria mesmo que são as maiores riquezas do concelho de Pedrógão”.

A especialista salienta que as técnicas de engenharia natural foram usadas pela primeira vez no concelho, que serviram de laboratório para outras intervenções em outros pontos do país. E que agora as águas estão mais limpas, “a qualidade sempre a subir”.

Na ribeira de Frades há uma grade viva para segurar o solo, fizeram-se açudes para permitir a oxigenação da água, plantaram-se salgueiros, fizeram-se “bio-rolos” de fibras de coco e fio de sisal para consolidar margens, tudo de forma manual, aproveitando árvores queimadas, troncos vivos de onde estão a brotar novas árvores.

Os troncos e os entrançados de material lenhoso além de segurarem as margens também impedem que com as chuvas se depositem terras e cinza no leito das ribeiras.

E agora que o trabalho acabou, depois de ter envolvido mais de 300 pessoas, incluindo a comunidade escolar, correm livres e limpas as águas das ribeiras de Frades e de Pera, há hortênsias floridas junto dos troncos das árvores, veem-se as flores da “erva do betadine”, planta da família das papoilas cuja seiva tem propriedades antisséticas e cicatrizantes, entre salgueiros e sabugueiros.

 

Fernando Peixeiro (texto) e António Cotrim (fotos), Agência Lusa

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